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órbitas


 Não me lembro de querer muitas coisas na vida para além de escrever. Sim, escrever livremente na varanda de um prédio qualquer, com vista para o horizonte e com o burburinho da azáfama dos carros debaixo dos meus pés. E gosto sempre de escrever para alguém, mesmo que eu ainda não o conheça, mesmo que o desenho do seu corpo na minha mente se baseie na sombra carregada de um fantasma que veio agarrado ao passado, e por lá ficou.

 Nunca achei que devesse enviar todas as cartas que te escrevo, nem nunca achei que fosses uma sombra atrelada ao meu passado, presa por um fio a que muitos poderiam chamar de hábito, ou melhor, masoquismo, e ao qual eu sempre dei o nome de amor. Um amor diferente dos outros, intemporal, sem clichés nem frases meio apagadas que os apaixonados rabiscam nos troncos de árvores de florestas que rapidamente se tornam sombrias.
Já lá vai o tempo em que te rias comigo, sim, deitado sobre o tapete da minha sala, mas não perdi a esperança de que voltes apressado para te aninhares em mim, com aquele sorriso acriançado que não há tempo que te arranque, e o coração quente a saltar-te pela boca, sem dono como só ele.
 E por mais voltas que a vida dê, não caímos no abismo da monotonia, talvez porque monótonas são as espécies de amor que não se fabricavam no nosso tempo, ou simplesmente porque sempre vivemos em pólos opostos, distantes até que as nossas próprias órbitas nos juntassem, num embrulhar de corpos e num emaranhar de sentimentos, que levam a minha escrita e o teu nome a juntarem-se como se nunca tivesse vivido separados.

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