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algodão


Razão: - Avisei-te tantas vezes, estúpido.
Coração: - Eu sei, e tu também sabes que ouvi pacientemente os teus sermões, que os interiorizei e que isso só me trouxe medo. E eu não gosto do medo.
R: - Como sei disso. Preferes atirar-te sem esperar que o tempo te estenda o chão seguro que deves pisar. E agora estás aí, encolhido com medo que te partam.
C: - Não gosto quando me dizes que não devo, que não posso, que não queres. Eu quero, quero tanto que chego a rebentar pelas costuras. Quero tanto desafiar as regras, quero o colo que só aqueles abraços - tu também conheces os abraços dele - me dão, quero a felicidade a romper-me as artérias, quero acreditar sempre que um dia sou eu quem te dá uma lição.
R: - Espero ansiosamente, companheiro. Mantenho a mente deste esqueleto erguido aberta só para que um dia entres pela porta e me proves que a tua presunção em conjunto com essa mania doida de amares sem conta nem medida, te trouxe algum beneficio.
C: - Não deixes de acreditar.
R: - Olha para ti, feito em papas. Olha à tua volta, vê bem a dimensão do camião que te espremeu até não te restar uma única pinga de sangue dentro. Olha para ele, aquele por quem gostas de estar sempre à espera. Percebe se vale a pena sofrer assim.
C: - Nunca me parece de mais o tempo que espero.
R: - Mas é de mais, o corpo que te suporta não cederá a vida inteira a tantos caprichos. As promessas que ouves são todas feitas de algodão, as palavras, cobertas daquela esperança fútil de que todas as vezes que tentas é diferente, mais sóbrio. A mentira em que vives só para saciar a fome daquele que facilmente se sacia de ti.
C: - Eu conheço-lhe o coração, tem bailarinas. Tu sabes que me perco com bailarinas. Ele tem vento dentro, tem a paz que nunca conheci em coração algum. Tem o sorriso da criança que acabou de conhecer o mundo, tem a leveza da infância agarrada às paredes do céu da boca. Tem música, e pianos, e sonhos.
R: - E tem o som das tuas lágrimas, que bem que sei que escondes de mim para não teres de ceder ao que eu  digo. Ao que eu sempre te disse.
C: - O que é que vais fazer comigo agora ?
R: - Aniquilar-te seria fácil. Vou sentar-me no fundo desta alma ferida e esperar que te esbarres contra a parede novamente. Vou ouvir o som dos teus passos inquietos quando não consegues dormir, assistindo em câmara lenta ao teu fracasso, que não é nada mais nada menos do que o fruto do que semeaste em tempos, que regaste com a fé cega que tens nos outros, e que no fim vais ver morrer nas tuas mãos.
C: - Queres-me mal ?
R: - Não, só te quero bem.

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