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Mensagens

coração às cores

Acho que sei gostar de ti, como uma criança que sabe gostar de doces. Não aprendi a gostar, não me empenhei em gostar, nem nunca tentei buscar uma explicação articulada para isso. Quando se gosta, gosta-se e pronto.  Não são os anos que te dão charme, nem é o tempo que te enche de graça, é só essa expressão que guardas com tanto afinco e firmeza, como se procurasses nos outros a tua casa, o teu parque de diversões, para te poderes deitar na relva e chegar ao céu. Porque tu chegas lá, mesmo que aches (tantas vezes) que não. Mesmo quando tentas e não consegues, mesmo quando te dizem que não és capaz. Porque eu acredito em ti, mil vezes mais do aquilo que acredito em mim. Por isso, a minha casa será sempre a tua casa, e podes voltar as vezes que forem precisas. Não batas, não fales, nem estremeças, entra só e deixa-te ficar em silêncio. Porque eu gosto do pulsar desse teu coração às cores, em conjunto com o som do teu riso de criança despreocupada, desse encantamento que as só as tuas his…

surda do coração

Não quero ouvir falar de amor. De mimos e coisas engraçadas. Não quero ouvir falar de ti, nem dos teus dramas, nem das cartas que me escreves quando eu não te quero ouvir. Deixa-me surda. Surda do coração.  Quando sofres muito e engoles tudo, a vida passa a ter um sentido diferente. Os teus dias resumem-se à força astronómica que tens de exercer no esqueleto para te manteres de pé. E não penses que é fácil - como tudo o que tiveste na tua vida - mas não é impossível, basta olhares para mim. E e quando o fizeres, foca-te em mim e não no meu corpo, na minha falta disto ou daquilo, olha-me para dentro, como fazem as crianças, e nunca te esqueças do que vires.  Sabes o que têm dentro, os corações ? Sangue quente, açucarado, pronto a descer ao corpo e a ferver nas veias. A dor, leve, morta, sempre enrolada ao canto dos olhos, onde em silêncio termina o seu percurso. O som leve das melodias e dos poemas cheios de mel, as promessas feitas com figas e um brando toque de magia, coberto daquilo …

cabana

Obrigada pela noite e pelas bailarinas, mais uma vez. Ontem achei-te mais feliz, cantaste-me enquanto me levavas para casa, e eu cumpri o prometido, aguentando as pálpebras só para te poder ouvir. Obrigada por segurares a minha mão. Ajudas-me a seguir, como se o meu rumo estivesse perdido nos teus dedos, enrolados nos meus a toda a hora.  Sinto-me uma criança, tão pequena e inocente. Tão leve, como só tu. Obrigada por teres ficado, por me ensinares a andar direita e a dormir quieta. Pelo gelado a meio da noite e pelas gargalhadas no meio das lágrimas. Por me cantares ao ouvido, e não quereres saber do meu ar mal disposto durante o sono.   Tens guardado bem o meu coração, e tenho sempre tanto medo que me percas. Eu não quero ficar sem ti, não quero que me leves o coração para longe, mas também não o quero sem ti lá dentro. Não preciso que te vás embora, e podemos levar a nossa cabana para qualquer lado, desde que isso não te impeça de me levares a ver as bailarinas. Quero que fiques comi…

ervilha

Olá, coração. Sei que estás encolhido nesse canto escuro onde te privei do mundo, mas hoje apetece-me falar contigo. Tenho saudades tuas, e da tua felicidade contagiante a saltar-me pela boca. Saudades do meu sangue a ferver nas veias, a teu mando, e os sentimentos em ebulição dentro do peito.  Estás choroso, muito mais magoado do que eu, eu sei. Eu ergo o esqueleto, a ti falta-te a força para te ergueres sempre que decidem espezinhar-te. E já perdemos a conta ao número de vezes em que isso se sucedeu. Mas estás a ir bem, descansa. Continua aí do tamanho de uma ervilha e não te importes se as fraudes passarem por ti, no fundo és mil vezes mais forte, porque eu sei - e mais ninguém precisa de saber - que tu ainda bates, mesmo pequenino e enrolado no medo, mesmo partido ou sem tecto, nunca perdeste a noção.  E o mais importante nos corações é noção perfeita da realidade tal como ela é, sem véus nem músicas lamechas para atenuar o sofrimento, ou para o tornar mais bonito. Não há nada de bo…

ponto final

Sempre gostei de lhes falar de ti, do teu cabelo desgrenhado e do teu sorriso encantador. Sempre gostei de gritar ao mundo o quanto era feliz contigo, mostrava-lhes o meu coração em bom estado e tenho cá para mim que se roíam de inveja.  Sempre pude escrever o que quisesse sobre ti, dar-te forma com os meus dedos, fazer-te crescer com as minhas sílabas, com os meus sonhos. E eu sou quem quero quando sonho, e tu és quem eu quero quando escrevo. E talvez seja por isso que tenhas contornos tão bonitos, sorrisos tão claros. Só porque te descrevo como quero irrevogavelmente que sejas, sem o medo estúpido de que isso na realidade não seja possível.   Eles chamam-me doida, eu assumo-me saudável. Não há mal algum naquilo que idealizamos de bom para nós, pior é não querer nada, não esperar nada. E tu não esperas nada de mim, eu sei. Mas pouco me importa o que queres de mim, eu serei sempre o oposto daquilo que tu desejas, e mesmo assim, tu às de querer ficar comigo. Mesmo que eu só fique contigo…

sorrir e acenar

Vejo-te do outro lado da rua e continuo a sorrir para mim própria, dói-me o peito mas não paro de sorrir. Imagino todas as princesas do mundo a repetirem o meu processo, previamente calculado e minuciosamente programado, não vão as fraudes aparecer a qualquer momento e estragar-nos a festa.  Sabes porque é que sorrimos, sem nunca parar? Porque no fundo é isso que fazemos, é isso que somos; verdadeiras guerreiras de sorriso descoberto, sempre com o coração feito num oito cheio de memórias fraudulentas e promessas por cumprir.  Mas continuamos mesmo que andemos todos os dias para trás, ninguém nos vê caídas nos cantos porque temos o esqueleto firme embora o coração se encontre desfeito, e funcionamos como máquinas programadas para sorrir a acenar, de forma a tranquilizar o mundo e atormentar-vos a vós.  Pousamos a alma em cima da almofada e todas as manhãs lá deixamos as mágoas, a marinar para a noite seguinte, e não contamos os nossos sonhos a ninguém, isso denunciaria a nossa sempre imp…

primeira vez

Ouvi-te falar de amor e ri-me baixinho, escondida neste silêncio acolhedor que a paz me proporciona, onde me nego a sentir seja o que for, só para não quebrar nem um pouco deste sossego.   O amor toca a todos, das mais variadas formas e feitios, coberto de véus ou claro e preciso como uma flecha, cheio de doces ou regado com o gosto amargo da distância, da partida, da dor. E amar é um verbo que se conjuga com o mesmo sentido independentemente do pronome, sem preconceitos seja lá qual for o sujeito. Sem erros, sem falhas, sem medida, por mais que o idioma varie.   Mas ouvir-te falar de amor faz-me cócegas no céu da boca, aguça-me os sentidos e põe-me alerta. Só porque eu acho que o teu amor por mim se conjuga de muitas formas no mesmo tempo, e mesmo quando falas de amor noutras línguas, parece-me sempre que mo segredas ao ouvido no mais puro e belo Português. E não é que não sejas tão vulgar quanto eu, igual aos outros que deitei na minha cama só para aconchegar o coração; mas sabes fala…