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Mensagens

órbitas

Não me lembro de querer muitas coisas na vida para além de escrever. Sim, escrever livremente na varanda de um prédio qualquer, com vista para o horizonte e com o burburinho da azáfama dos carros debaixo dos meus pés. E gosto sempre de escrever para alguém, mesmo que eu ainda não o conheça, mesmo que o desenho do seu corpo na minha mente se baseie na sombra carregada de um fantasma que veio agarrado ao passado, e por lá ficou.
 Nunca achei que devesse enviar todas as cartas que te escrevo, nem nunca achei que fosses uma sombra atrelada ao meu passado, presa por um fio a que muitos poderiam chamar de hábito, ou melhor, masoquismo, e ao qual eu sempre dei o nome de amor. Um amor diferente dos outros, intemporal, sem clichés nem frases meio apagadas que os apaixonados rabiscam nos troncos de árvores de florestas que rapidamente se tornam sombrias. Já lá vai o tempo em que te rias comigo, sim, deitado sobre o tapete da minha sala, mas não perdi a esperança de que voltes apressado para te a…

carvão

E como eu gosto de te desenhar, no papel. Venero a sensação quase arrepiante de deixar deslizar o carvão até que este intoxique as folhas do meu caderno com o teu cheiro. Prefiro os teus contornos delineados com os meus dedos, junto com a força irregular das minhas mãos, por se entrelaçarem nas tuas.  Chega-te um pouco, e aconchega-te. Repara bem como a felicidade é um livro equilibrado de emoções, descritas ao pormenor por aqueles que a sabem sentir na ponta dos dedos, quando as palavras deslizam para o papel como se lá tivessem nascido, e as sílabas se juntam como se existisse magia.  Tu não sabes, mas eu conto-te. E conto-te baixinho para me conseguires ouvir com o coração, e para que me leias nos olhos o verdadeiro sentido do meu amor por ti, que pouco se baseia em teorias foleiras à cerca de pessoas cujo o sistema hormonal prega partidas. Cá para nós, o amor foi uma coisa antiga que já sentimos muitas vezes, agora resumimos-nos à busca constante do puzzle que é o meu corpo preso n…

improvável

Hoje voltou a doer. Doeu-me como se não tivessem passado anos, como se te desenterrassem do meu quintal e te pendurassem junto ao meu coração, que (ainda) está partido. Sei lá porque é que te escrevo, porque é que insisto ainda na tua mentira, no sabor das palavras que me soam tão bem quando só a ti dirigidas, mesmo quando sei que me matas todos os dias mais um pouco.  Hoje voltaram a perguntar-me por ti, se estavas feliz. Logo tu, cuja felicidade nunca foi um forte, que preferias esconder-te do mundo em vez de saltar a janela e correr à chuva. Eles gostavam de ti. Achavam que podias levar-me daqui e encher-me os bolsos de amor. Os bolsos e o coração, e a minha alma que levita ao mínimo gesto; julgo que tinham em esperança que me pousasses junto ao chão para eu deixar de voar. Logo eu, a bailarina.  No fundo, dói-me porque não sei esquecer, nunca soube. E principalmente, não sei esquecer aqueles que amei com o coração a saltar-me pela boca, aqueles cujas histórias eram as mais macabras e…

sossego

Desta vez chegaste cedo, meu amor. Nem dei por ti, confesso. Gosto mais quando te aninhas em mim sem eu perceber e me fazes rodar levemente até me apertares com toda a força do mundo. E como eu gosto que me apertes até doer, até que os meus músculos peçam descanso e o meu coração se agarre a ti como uma criança.  Já tinha saudades do cheiro leve do teu perfume nas minhas mãos, de te ver perdido algures na minha cama, sobre os lençóis meio desfeitos e o amontoar de almofadas. Morria de saudades das bailarinas, e do som do piano dentro da minha cabeça, a lembrar-me que tu eras a causa do meu sossego, que és o meu maior sonho e que posso construir nos teus ombros a minha casa, sem nunca correr o risco desta ruir. Só porque és calmo mesmo quando me agitas, mesmo quando foges e não dizes para onde vais, quando sais a correr e não me escreves cartas, quando o mundo quebra e tu te mantens intacto.  E por isso me ensinas a andar na corda bamba sem medo, deixas-me saltar-te para o colo e adormece…

travesso

Já vi este filme acontecer. Como uma curta metragem em câmara lenta, projectada no interior do meu coração.  Viras-me a casa do avesso, remexes a mobília que tão meticulosamente tinha arrumado ao fundo do peito, na esperança fútil de que nada, já mais, saísse do lugar. Mas esqueço-me que tu és tu. E vá se lá saber porque é que és tu e não outro. Talvez porque tens ar de príncipe, e um coração às cores, ou mesmo porque não és para mim e eu gosto da batalha constante que a minha teimosia trava com o meu cérebro séptico, sempre que tendes a escorregar-me por entre os dedos.  Não é que eu não aprenda nada com os erros, ou que feche os olhos às cabeçadas que vou dando nas portas que já me fecharam, e mesmo naquelas que fechei a mim mesma. Não é que não tenha medo, nem que não seja suficiente forte para o enfrentar, nem é por nada que se pareça. Eu só gosto de acreditar em ti, mesmo quando me mentes. E gosto ainda mais de aldrabar o coração e fingir que nada se passa, que o teu toque não tem …

pretéritos

Ontem foi diferente de todos os pretéritos que já vivi contigo. Foi mais doce, novamente mais leve e tu sempre mais solto. Com um brilho novo nos olhos e na ponta dos dedos, onde me embalas nessas melodias de pianista sacana, envolto em todos os prós e contras que o meu amor por ti te impõe.  Já tinha saudades, confesso. Principalmente, umas saudades loucas de mim quando estou contigo. Do meu sangue quente a correr nas veias e do meu coração cansado enrolado no teu a toda a hora. Sentia a falta desse abraço sufocante que quase me mata, mas me reconforta. Como tudo o que já vivi contigo, todos os riscos que fiz o meu coração passar em prol da tua pessoa, do teu espírito nómada e pouco convencional, que sempre me levaram ao encontro do pior dos venenos e da maior das loucuras.  Mas sabes que mais, não me importo. Nunca me importei se me matavas muito ou pouco de cada vez; ou mesmo se me matavas por inteiro sem eu dar por isso. Eu gosto de sentir as artérias enroladas no fundo do peito, n…

coração às cores

Acho que sei gostar de ti, como uma criança que sabe gostar de doces. Não aprendi a gostar, não me empenhei em gostar, nem nunca tentei buscar uma explicação articulada para isso. Quando se gosta, gosta-se e pronto.  Não são os anos que te dão charme, nem é o tempo que te enche de graça, é só essa expressão que guardas com tanto afinco e firmeza, como se procurasses nos outros a tua casa, o teu parque de diversões, para te poderes deitar na relva e chegar ao céu. Porque tu chegas lá, mesmo que aches (tantas vezes) que não. Mesmo quando tentas e não consegues, mesmo quando te dizem que não és capaz. Porque eu acredito em ti, mil vezes mais do aquilo que acredito em mim. Por isso, a minha casa será sempre a tua casa, e podes voltar as vezes que forem precisas. Não batas, não fales, nem estremeças, entra só e deixa-te ficar em silêncio. Porque eu gosto do pulsar desse teu coração às cores, em conjunto com o som do teu riso de criança despreocupada, desse encantamento que as só as tuas his…