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Mensagens

isto

Escrevo sempre que estou desesperada - ou mesmo quando não estou. Ultimamente sinto a sede das palavras na ponta da língua, que se enrola fazendo um nó na garganta. Só as palavras me salvam; as letras, as sílabas, as metáforas e as anáforas, os sujeitos, os predicados, os complementos, os travessões, as vírgulas e os constantes pontos finais. Em todo o meu percurso, de todas as vezes em que senti que o mundo era demasiado grande para mim, e que nada do que fazia se ajustava à minha medida, lá estavam as palavras. No fim de tudo, no fim dos meus dias e no fim do fio que suporta o meu coração atrelado ao corpo, está a escrita. O cheiro do papel e da caneta que não se assemelham a nada que conheço, a leveza que é não ter limites impostos e simplesmente escrever.  Espanta-me quem não as conhece, espanta-me que não as usem como eu, para um proveito que é tão próprio e tão meu. Entristece-me quando as desvalorizam, quando as usam sem as sentir como quem ama pela primeira vez e nunca mais se e…

no teu deserto

"Escrever é usar as palavras que se guardaram: se tu falares de mais, já não escreves, porque não resta nada para dizer."  Miguel Sousa Tavares in "No teu deserto"
Sabes que mais, também eu me calo para te escrever. Sim, fecho-me em copas para te poder dizer tudo da maneira mais genuína que conheço em mim, com as letras coladas ao papel como duas irmãs siamesas. Talvez perca por me perder, por não saber por onde ir e por isso escrever até ficar sem dedos. Talvez ganhe por me calar, por fechar a sete chaves as cartas que deixo para te enviar amanhã, ou depois. E muito provavelmente, talvez escreva por ser egoísta, por não ter aprendido a dar o coração de outra forma, por achar que as palavras me dão um mérito que só eu me conheço, e por só estas saberem de mim o que também só tu sabes.
p.s: o livro, é dos bons.

vermelho às bolinhas

Eu gosto desses teus sonhos coloridos que dão vida aos meus. Adoro essas palavras rabiscadas com aquela caligrafia elegante e eternamente charmosa, que me deixas em cima da mesa de cabeceira para não me acordar. E não fazes ideia do quão delicioso se torna o meu despertar por causa disso.
 Mais uma noite de mimos, cheia de bailarinas, como eu gosto. Levas-me ao colo no olhar, e não sei como o fazes, mas embrulhas-me no teu manto de príncipe salvação e não há nada que me traga à realidade. Gosto desse teu cheiro, fazes-me lembrar a minha infância, a casa dos meus avós e os rebuçados rabiscados às escondidas. Principalmente, pela felicidade que me transmite, a calma envolta no chocolate quente de todas as noites em conjunto com o calor dessas mãos bem contornadas e firmes.  Já deves estar cansado dos meus eternos agradecimentos, tal como das minhas cartas apaixonadas e do peso das minhas pálpebras nas viagens de regresso a casa. Mas eu não me canso. Mesmo que repita o processo todos os di…

defunto

Quem me dera lembrar-me de tudo o que já pensei ter para te dizer. Quem me dera a mim ter todo o tempo do mundo para o fazer, sem pressa como é costume. E já tive tanta coisa bonita para conversar contigo, assim como tantos momentos onde a raiva se colava ao céu da minha boca e só tinha vontade de te arrancar o coração à dentada. Esta ambiguidade de sentimentos nunca me deixou perceber se o meu amor por ti era o reverso do ódio que tinha às tuas atitudes de príncipe mal formado, cheio de truques e palavras ao vento.
 Mas sim, continuo a desejar lembrar-me das cartas que te escrevi com a cabeça enrolada no coração, das pequenas palavras que rabisquei na porta do frigorífico para não me esquecer, e que mesmo assim me esqueci. Talvez tenha sido a minha memória, a falhar como é costume; ou o meu coração a dizer chega, a revoltar-se dentro do peito como um defunto atormentado enfiado num caixão. Provavelmente porque se houvera fartado do silêncio dos meus dias quando não tenho nada a dizer…

açúcar com vinagre

Deveria pegar no futuro, arrumá-lo numa mala, e pôr-me a andar. Já não há nada que possa fazer por ti, pelo teu jeito desajeitado de gostar de alguém, esse coração abandonado à chuva em conjunto com a tua alma pouco clara e desarrumada. Devia deixar-te, porque é isso que as princesas fazem quando o presente tende a ser pretérito; quando os dias, enfadonhos, se enrolam uns atrás do outros e já nada nos diz nada de nada.
É sempre melhor partir, deixar tudo para trás, enfiar o coração num saco e carregá-lo às costas em vez de dentro do peito. Melhor mesmo é esquecer, apagar da memória, fazer delete e esperar que processe, o tempo que for preciso, com lágrimas se necessário, e sem medo, o medo de que no futuro não haja nada igual nem parecido, que nos pegue ao colo e nos faça cócegas no céu da boca, como aquilo que tinha-mos antes do pretérito.  E dói menos se regar-mos com açúcar o vinagre, como quem ri para não chorar, sem receio que o mundo inteiro esteja a ver, saboreando o veneno com…

órbitas

Não me lembro de querer muitas coisas na vida para além de escrever. Sim, escrever livremente na varanda de um prédio qualquer, com vista para o horizonte e com o burburinho da azáfama dos carros debaixo dos meus pés. E gosto sempre de escrever para alguém, mesmo que eu ainda não o conheça, mesmo que o desenho do seu corpo na minha mente se baseie na sombra carregada de um fantasma que veio agarrado ao passado, e por lá ficou.
 Nunca achei que devesse enviar todas as cartas que te escrevo, nem nunca achei que fosses uma sombra atrelada ao meu passado, presa por um fio a que muitos poderiam chamar de hábito, ou melhor, masoquismo, e ao qual eu sempre dei o nome de amor. Um amor diferente dos outros, intemporal, sem clichés nem frases meio apagadas que os apaixonados rabiscam nos troncos de árvores de florestas que rapidamente se tornam sombrias. Já lá vai o tempo em que te rias comigo, sim, deitado sobre o tapete da minha sala, mas não perdi a esperança de que voltes apressado para te a…

carvão

E como eu gosto de te desenhar, no papel. Venero a sensação quase arrepiante de deixar deslizar o carvão até que este intoxique as folhas do meu caderno com o teu cheiro. Prefiro os teus contornos delineados com os meus dedos, junto com a força irregular das minhas mãos, por se entrelaçarem nas tuas.  Chega-te um pouco, e aconchega-te. Repara bem como a felicidade é um livro equilibrado de emoções, descritas ao pormenor por aqueles que a sabem sentir na ponta dos dedos, quando as palavras deslizam para o papel como se lá tivessem nascido, e as sílabas se juntam como se existisse magia.  Tu não sabes, mas eu conto-te. E conto-te baixinho para me conseguires ouvir com o coração, e para que me leias nos olhos o verdadeiro sentido do meu amor por ti, que pouco se baseia em teorias foleiras à cerca de pessoas cujo o sistema hormonal prega partidas. Cá para nós, o amor foi uma coisa antiga que já sentimos muitas vezes, agora resumimos-nos à busca constante do puzzle que é o meu corpo preso n…