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Mensagens

laços

É o sufoco a correr nas veias, o sangue quente em profusão a aninhar-se junto às artérias, os batimentos exaustivos da máquina da vida contra o peito, sinapses sucessivas de razão que não chegam ao cérebro.   Este sabor a veneno que não me sai do corpo, o cheiro penetrado na roupa até ao mais ínfimo átomo de algodão, a felicidade instalada, que me deixa exausta, por nunca me considerar saciada.  Não mato a fome de te ver, de sentir o timbre monocórdico da tua voz de criança grande junto aos meus ouvidos, encolhidos nos teus dedos. Não perco a vontade de encher o meu coração contigo até este rebentar pelas costuras, e não me calo só pelo prazer que é ouvir-te rir do outro lado do mundo e saber que estás bem, inteiro, como sempre te conheci e como em todas as (poucas) vezes que te tenho junto a mim.   E sempre que te vejo estás diferente, crescido como só tu; e mesmo assim não perco mania de te querer trazer no peito para não te perder, e não consigo ficar longe te ti porque isso me lembr…

carapaça

Já à algum tempo que não me vinhas buscar, e comecei até a pensar que nunca mais o farias. Passou algum tempo desde a última vez em que me acordaste para me contar que tinhas sonhado comigo, e depois me beijaste o nariz para eu voltar a adormecer. 
Talvez tenhas estado dentro da tua carapaça de tartaruga inofensiva que só quer pousar a bagagem e descansar. Porque és orgulhoso e gostas de sofrer sozinho, tal como eu, nos dias em que não te escrevo nem te ligo, nem me preocupo em lembrar-me da morada da tua casa para lá poder assentar. Gostas de vagabundear pelas ruas e ancorar num porto qualquer para carregar as baterias, e eu faço o mesmo, só para não ter de parar para pensar.  Pensar dá-nos (a ambos) muito trabalho, ocupa-nos por inteiro o coração e é por isso que não gostamos que os outros nos vejam, desprotegidos à espera de uma casa onde nos entre a carapaça sem precisar-mos de fingir que não a temos. Pois carregamos tudo o que a vida já nos deu, numa bagagem enorme que suportamos …

iô-iô

És contraditório, um iô-iô dentro do meu coração, um vaivém sobre o meu corpo, um vendaval a envolver-me os sentidos. Aprecio esse ar cavalheiresco que o tempo te deu, já nem sempre te pareces com uma criança, só quando sorris. E a ti ninguém te rouba esse sorriso, nem o tempo.  Existem mil e uma palavras de que te privo desde o primeiro dia, como se não soubesses guardar segredos - não os meus. E tu sabes que tenho segredos para ti, que me fecho em copas quando queres saber alguma coisa, que não te olho nos olhos por saber que procurarias no fundo da minha alma até encontrares o que te escondo. Mas mesmo assim, ficas comigo. Ficas e aqueces-me o coração, ou o lugar dele. E pergunto-me muitas vezes como seria se não o fizesses, se não me alimentasses a artéria vital com que escrevo, o sentido nato para os sentimentos e para as pessoas, que mudam todos os dias. Como seria viver sem as tuas ausências outrora riscadas da minha história, e os teus deliciosos regressos em tardes de verão. Qu…

âncora

Não me habituei muito bem às despedidas, às viagens sem retorno, às passagens só de ida. Fico sempre na expectativa de que quando chegar a casa e pegar na imensidão de fotografias que temos juntos, posso agarrar nos pedaços do meu coração, e juntá-los todos perto de mim.   A verdade é que não posso, não consigo ter aquilo que não está nem nunca esteve predestinado a ficar comigo, ao meu lado como âncora, um porto seguro para largar as bagagens e descansar. Não podemos imortalizar o que já se dissipou, o que o nosso coração riscou do mapa por uma questão de segurança, aquilo que a vida e o vento levaram e enterraram, como uma ferramenta sem utilidade. E isso não quer dizer que os queiramos menos, que já não pensemos como seria se, que esqueçamos a intensidade do olhar ou a textura da pele. Significa apenas que o tempo se esgota, como tudo na vida, que os sentimentos e as palavras não são sinónimos e que aquilo que queremos, nem sempre é o melhor para nós. E o melhor para mim, foi a tua …

caixa de música

Que saudades desse cheiro a alecrim e das tuas mãos de pianista aldrabão, maltratado pela vida. Saudades até do teu jeito rude de ser, da tua expressão fechada e do cigarro pousado ao canto da boca.
 Se contasse aos outros que vivia contigo, ou melhor, que vivia contigo dentro de uma caixa de música, selados pelo estranho amor que nos unia: tu a tocar piano e eu a dançar para ti, num envolver de corpos e num emaranhar de sentimentos; poucos acreditariam. Era realmente pouco provável que o destino nos juntasse, que os planetas regidos pelas órbitas, ditassem que o meu futuro haveria de ser no teu caminho, bem no meio da tua vida e das tuas coisas, com o único objectivo de te amar tal como tu és, sem perguntas nem porquês, num amor puro e estéril, pronto a fazer-se à vida e a durar para sempre.
 Estranho que tenha saudades tuas. Estranho quando ainda hoje te vi, meio perdido e meio tosco no fim da nossa rua, com o nariz empinado e as mãos gastas nos bolsos, sem medo de nada como é costume.…

mais que ontem, menos que amanhã

À tempos vi um casal já com os seus oitentas estampados no rosto, cobertos daquelas rugas deliciosas que só dão vontade de alisar com o polegar e deixar ficar. Passeavam lentamente - tão rapidamente quanto lhes era possível - de mãos dadas, diria melhor, coladas, encaixando os dedos enrugados uns nos outros, como se estes lá tivessem nascido.  Reparei que não falavam, e não, não me pareceu um daqueles silêncios constrangedores, onde ninguém sabe o que dizer. Talvez falassem pouco mesmo, provavelmente porque não houvera nada a dizer, porque os seus dias eram agora gastos com ternura dos netos e pouco mais. Talvez porque se amassem como eu, infantil, já mais pudesse imaginar.  Costumo idealizar-nos, velhos e cansados. Não sei bem porque o faço, talvez porque queira demasiado ter-te a meu lado quando lá chegar-mos. E sim, quero lá chegar contigo, quero que me ajudes a erguer o esqueleto quando este teimar em fraquejar, quero que (ainda) me leves às bailarinas pela mão, que toques piano e …

isto

Escrevo sempre que estou desesperada - ou mesmo quando não estou. Ultimamente sinto a sede das palavras na ponta da língua, que se enrola fazendo um nó na garganta. Só as palavras me salvam; as letras, as sílabas, as metáforas e as anáforas, os sujeitos, os predicados, os complementos, os travessões, as vírgulas e os constantes pontos finais. Em todo o meu percurso, de todas as vezes em que senti que o mundo era demasiado grande para mim, e que nada do que fazia se ajustava à minha medida, lá estavam as palavras. No fim de tudo, no fim dos meus dias e no fim do fio que suporta o meu coração atrelado ao corpo, está a escrita. O cheiro do papel e da caneta que não se assemelham a nada que conheço, a leveza que é não ter limites impostos e simplesmente escrever.  Espanta-me quem não as conhece, espanta-me que não as usem como eu, para um proveito que é tão próprio e tão meu. Entristece-me quando as desvalorizam, quando as usam sem as sentir como quem ama pela primeira vez e nunca mais se e…