Avançar para o conteúdo principal

Mensagens

viagens

Setembro 2010:
 Lamento ter-me esquecido de tantas coisas, ter de olhar para trás, sentir na pele os anos que já foram, as dores na alma e no fundo do peito que aos poucos construíram a dura armadura que me aperta a caixa torácica agora. Correm-me no sangue as memórias, as duras saudades que sinto dos episódios mais caricatos que ao longo do tempo fui armazenando, as vastas colecções de sorrisos e lágrimas, os apertos fortes dos abraços que com alguma lamentável certeza já não verei, nunca mais. Triste é a minha mente, quando me esforço para recordar o rosto de alguém que dissipou, sem eu ver. Aperto-me com vergonha, da memória que me falha, do nome que não me lembro, das noites mal dormidas a divagar e a comer bolachas que hoje me esforço para manter na lembrança.  Devíamos poder guardar tudo em livros, com imagens a ilustrar, com o som da viola como fundo, com a noite só para nos embalar, para que a memória ficasse impossibilitada de falhar uma e outra vez, para que não escondêssemos …

armadura de açúcar

Estou coberta por aquele medo inocente de te perder, atormentada pelo coração aos pulos, inquieta devido ao frio que se faz sentir no meu corpo quando te vais, quando me soltas, quando te deixo.
Não vale a pena tentar fingir que não me importo, que não me iludo. O amor tem esse poder em mim, derrete-me a armadura de açúcar que gosto de trazer erguida à volta do peito, deixa-me despida e vulnerável ao palpitar leve do coração enrolado na magia que é gostar simplesmente porque sim, e sem que outro motivo me desinquiete o espírito.   Tenho mais medo ainda do que sinto, de mim mesma quando já não tenho mão nem ordem num corpo que sempre foi tão meu, na máquina pulsante que nunca deixei de trazer amarrada às artérias por receio que se perdesse. E perder o coração não é deixá-lo num banco de jardim, nem sequer se compara a perder a cabeça; perdê-lo é deixar que nos fuja das mãos quando ainda está ao nosso alcance, é vê-lo caminhar em direcção ao que o sangue anseia, é quase tão simples como …

obra-prima

Adoro ouvir-te falar ao longe, alheio ao mundo, persistente e corajoso, crente nas convicções mais absurdas e apoiado em pilares de esferovite prestes a ruir. Gosto desse coração leve, a alma que levita, esse teu sorriso fácil. Prefiro que me bombardeies com histórias sem pés nem cabeça, até eu acabo por as pintar à minha maneira e entregar-tas em mãos para que não as percas. E é bem melhor quando desenhamos o mundo com os dedos cheios de tinta, trilhando os caminhos mais improváveis e deixando que o acaso tome conta do resto quando nos encostamos à sombra do amor que sentimos, e os riscos se formam por si, mesmo quando nos falta a força nos pulsos.  Não há nada como amar, nada que se compare ao amor, nada que substitua a tela cheia numa parede branca, um coração cheio num corpo vazio, a mão cheia de emoções quando a alma não cede. E pouco importa a velocidade com que enches o copo, bom mesmo é que saibas que a tinta se verte com cuidado e que os borrões nunca são motivos suficientes p…

laços

É o sufoco a correr nas veias, o sangue quente em profusão a aninhar-se junto às artérias, os batimentos exaustivos da máquina da vida contra o peito, sinapses sucessivas de razão que não chegam ao cérebro.   Este sabor a veneno que não me sai do corpo, o cheiro penetrado na roupa até ao mais ínfimo átomo de algodão, a felicidade instalada, que me deixa exausta, por nunca me considerar saciada.  Não mato a fome de te ver, de sentir o timbre monocórdico da tua voz de criança grande junto aos meus ouvidos, encolhidos nos teus dedos. Não perco a vontade de encher o meu coração contigo até este rebentar pelas costuras, e não me calo só pelo prazer que é ouvir-te rir do outro lado do mundo e saber que estás bem, inteiro, como sempre te conheci e como em todas as (poucas) vezes que te tenho junto a mim.   E sempre que te vejo estás diferente, crescido como só tu; e mesmo assim não perco mania de te querer trazer no peito para não te perder, e não consigo ficar longe te ti porque isso me lembr…

carapaça

Já à algum tempo que não me vinhas buscar, e comecei até a pensar que nunca mais o farias. Passou algum tempo desde a última vez em que me acordaste para me contar que tinhas sonhado comigo, e depois me beijaste o nariz para eu voltar a adormecer. 
Talvez tenhas estado dentro da tua carapaça de tartaruga inofensiva que só quer pousar a bagagem e descansar. Porque és orgulhoso e gostas de sofrer sozinho, tal como eu, nos dias em que não te escrevo nem te ligo, nem me preocupo em lembrar-me da morada da tua casa para lá poder assentar. Gostas de vagabundear pelas ruas e ancorar num porto qualquer para carregar as baterias, e eu faço o mesmo, só para não ter de parar para pensar.  Pensar dá-nos (a ambos) muito trabalho, ocupa-nos por inteiro o coração e é por isso que não gostamos que os outros nos vejam, desprotegidos à espera de uma casa onde nos entre a carapaça sem precisar-mos de fingir que não a temos. Pois carregamos tudo o que a vida já nos deu, numa bagagem enorme que suportamos …

iô-iô

És contraditório, um iô-iô dentro do meu coração, um vaivém sobre o meu corpo, um vendaval a envolver-me os sentidos. Aprecio esse ar cavalheiresco que o tempo te deu, já nem sempre te pareces com uma criança, só quando sorris. E a ti ninguém te rouba esse sorriso, nem o tempo.  Existem mil e uma palavras de que te privo desde o primeiro dia, como se não soubesses guardar segredos - não os meus. E tu sabes que tenho segredos para ti, que me fecho em copas quando queres saber alguma coisa, que não te olho nos olhos por saber que procurarias no fundo da minha alma até encontrares o que te escondo. Mas mesmo assim, ficas comigo. Ficas e aqueces-me o coração, ou o lugar dele. E pergunto-me muitas vezes como seria se não o fizesses, se não me alimentasses a artéria vital com que escrevo, o sentido nato para os sentimentos e para as pessoas, que mudam todos os dias. Como seria viver sem as tuas ausências outrora riscadas da minha história, e os teus deliciosos regressos em tardes de verão. Qu…

âncora

Não me habituei muito bem às despedidas, às viagens sem retorno, às passagens só de ida. Fico sempre na expectativa de que quando chegar a casa e pegar na imensidão de fotografias que temos juntos, posso agarrar nos pedaços do meu coração, e juntá-los todos perto de mim.   A verdade é que não posso, não consigo ter aquilo que não está nem nunca esteve predestinado a ficar comigo, ao meu lado como âncora, um porto seguro para largar as bagagens e descansar. Não podemos imortalizar o que já se dissipou, o que o nosso coração riscou do mapa por uma questão de segurança, aquilo que a vida e o vento levaram e enterraram, como uma ferramenta sem utilidade. E isso não quer dizer que os queiramos menos, que já não pensemos como seria se, que esqueçamos a intensidade do olhar ou a textura da pele. Significa apenas que o tempo se esgota, como tudo na vida, que os sentimentos e as palavras não são sinónimos e que aquilo que queremos, nem sempre é o melhor para nós. E o melhor para mim, foi a tua …