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absurdo

Deixa-me ver um pouco da massa de que és feito, liberta o teu corpo e deixa que o meu coração se envolva. Ouve-me bem, toma conta de mim. Não me deixes, mas também não me iludas, não me aldrabes a mente com promessas fúteis. As mentiras são para os fracos.
Agarra-me, entre as tuas mãos, e deixa-me livre o suficiente para cair. As quedas sempre me apuraram os sentidos. Lê-me histórias, e frases lamechas a meio da noite. Faz-me chorar, faz-me querer voltar para ti sempre que penso que o melhor será hibernar e esquecer que existes. Cobre-me os ombros com o teu casaco, beija-me a testa e leva-me ao céu. Não tenhas medo do que eu te posso fazer sentir, porque amanhã é incerto e eu posso já não ser a mesma. Continua a tocar-me piano e deixa-me adormecer ao teu colo. Fala-me dos teus sonhos, de todos eles. Sê absurdo e não te envergonhes. Porque o amor nunca é certo nem são, mas é bonito. E é essa beleza que tu conservas, a do meu amor por ti.
"Que é que eu procuro na literatura? Que é que me arrasta para este combate interminável e sempre votado ao fracasso? Como é imbecil pensar-se que se escreve para se "ter nome" e as vantagens que nisso vêm. Espera-se decerto sempre fazer melhor, mas só porque sempre se falhou. Assim se sabe também que se vai falhar de novo. Não se escreve para ninguém, o problema decide-se apenas entre nós e nós. Mas há um lugar inatingível e cada nova tentativa é uma tentativa para o alcançar.
O desejo que nos anima é o de fixar, segurar pela palavra o que entrevemos e se nos furta. Julgamos às vezes que o atingimos, mas logo se sabe que não. Miragem perene de uma presença luminosa, de um absoluto de estarmos inundados dessa evidência, encantamento que nos deslumbra no instante e nesse instante se dissolve.
O que me arrasta nesta luta sem fim é o aceno de uma plenitude de ser, a integração perfeita do que sou no milagre que me entreluz, a transfiguração de mim e do mundo no que fulgura e…

arestas

Disseste-me para não ter medo. Para não ter medo porque a vida, o destino ou a sina haveriam sempre de nos incluir na história um do outro. E por mais inconveniente que isso possa parecer, eu gosto de acreditar, adoro essa ideia apaixonada de que o universo conspira a nosso favor.  Disseste-me para não ter medo das tuas investidas, dos teus sonhos virados do avesso, dos teus ideais infantis. Porque a vida haveria de te limar as arestas. Tal como fez comigo, e com todos aqueles que se atreveram a crescer devagar, como se o tempo chegasse para tudo.   E o tempo que passo longe de ti serve para perceber que grande parte dos medos que tenho são em vão. São fantasmas dentro do armário que insisto em manter vivos, são feridas antigas que não sararam, são memórias de outros tempos e de outros corpos, que pouco nada nos servem no futuro. E em vão eles permanecem na minha vida. Até quando me dizes para não ter medo.

antídoto

Já era tarde quando me entraste pela janela para te aninhares em mim. Era tarde em muitos sentidos. Tarde para o relógio parado que tenho na parede, para os meus vizinhos que rosnavam baixinho por causa do barulho, para o meu corpo que só queria descanso, era tarde para o meu coração.
Embora nunca seja tarde para o amor, para o teu amor por mim, que surge esporadicamente e sempre a altas horas da madrugada. Nunca é de mais o tempo que espero por ti. Mesmo que o teu coração chegue gélido aos meus lençóis e que o teu corpo nem sempre encontre a melhor maneira de se encaixar no meu. Acabas sempre por conseguir, por entrar em mim e fixar-te nas minhas artérias, o teu cheiro acaba sempre por ficar preso às minhas almofadas, e eu presa a elas, quase algemada.  Tenho procurado o melhor antídoto para esses regressos, esses verdadeiros atentados à minha sanidade sentimental, embora seja imune à maior parte deles. Tenho escrito sempre com o intuito de te exorcizar, embora acabe sempre por alimen…

primavera

São já muitas as cartas que te escrevo e que rasuro em seguida, e tu sabes que não sou de meios termos. Sempre te escrevi que nem uma louca, sem parar um único segundo para aparar a coerência dos meus próprios factos. Nunca deixei de te enviar os rascunhos dos meus sonhos, pois sempre me ajudaste a entrar neles de cabeça. Não com a cabeça é verdade, pois tu só usas o coração. E por vezes, nem esse sabes usar.
 Queria contar-te o meu dia com detalhes, encher as linhas com o brilho do sol que agora nos visita mais cedo, poder mostrar-te como já cheira à primavera, quantificar sentimentos e descrever-tos ao pormenor por saber que irias entender. Queria falar-te dos homens e do quão complicado continua a ser para mim lidar com o amor. E com o meu amor por ti. Gostava de poder ensinar-te tudo sobre o que já sei sobre as princesas, para que mais tarde ensines aos teus filhos o quão bom é encontrar uma.
Preferia que os teus filhos fossem os meus, e que juntos pudéssemos incutir-lhes cada d…

verdadeiro

Um dia vais lembrar-te de mim e perceber que tudo o que te fazia sentir era verdadeiro. Esse dia talvez seja aquele em que encontras alguém que desperte em ti tudo o que tu despertaste em mim. Talvez seja à noite, antes de adormeceres. Porque é à noite que eu sinto mais a tua falta. E talvez aí também sintas a minha.

ácido

Encontrei-me contigo do outro lado da vida porque é lá que me esperas, sempre com o teu sorriso delicioso e os teus braços abertos para me receber. Mesmo quando eu quero ficar longe de ti, mesmo quando eu espero que me dês o espaço suficiente para eu continuar a respirar.  Pouco me importa o que os outros pensam de mim, e o que eles pensam de mim contigo. Não me faz diferença que me cozinhem o cérebro com a lição que estudo à anos, a teu respeito. Quero lá saber se eles acham o meu amor doentio e a tua falta de carácter macabra. Eu gosto é de ti, e desse jeito atrapalhado que tens de gostar de mim. E lá no fundo da minha alma, eu percebo o quão errado lhes pode parecer. O meu hemisfério racional - que guardo com tanto afinco - teima em dizer-me o mesmo de todas as vezes em que perco a cabeça, só para não ter de o ouvir. Adormeço com a perfeita consciência de que amar-te é como um ácido corrosivo e altamente inflamável, e que depois de solto na corrente sanguínea, há que esperar uma mor…