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Mensagens

mel

Quando comecei a escrever queria dizer que tinha saudades tuas. Queria ter-te perto e mostrar-te que até podíamos mudar o destino. Talvez o mel dos teus olhos me deixasse muda, perdida naquele que é o meu amor por ti na mais pura das suas formas. Depois, depois pensei que o melhor seria despedir-me. Deixar-te como me deixas-te e permitir que baloiçasses o resto da vida na corda bamba. E enganas-te se pensas que não posso querer as duas coisas em simultâneo. Sempre quis esquecer-te e recordar-te ao mesmo tempo, como quem lambe as lágrimas por prazer.  Tive medo, é verdade. Medo de fechar esta carta sem te dizer metade daquilo que predestinei como certo e correcto. Talvez na tentativa vã de te fazer recuar um pouco para te aninhares em mim, em nós. E, certamente que ficarei com coisas por dizer. Fico sempre, quando te escrevo faço-o infinitamente porque há sempre algo mais dentro de mim, para ti.  Quero que saibas que estou bem. Inteira, como só tu me conheces. Talvez continue com von…

grandpa

Gritavas-me baixinho que estou a ficar crescida. Pensar que ainda ontem me trazias pela mão e multiplicavas a tua paciência por mil para me aguentar por perto. Prezo muito, esse esforço do tamanho do teu coração para nos manteres felizes. Sempre com esses teus enormes olhos azuis a que nem a idade rouba o brilho.  Vejo-te soprar as velas e a vida cada vez com menos força, como quem aos poucos vai deixando de cá estar. Mas vives tão dentro de nós que só respiramos de alivio quando te podemos ver, sereno e profundamente feliz, aninhado no teu canto. Pergunto-me como será quando te fores embora. Quando o tempo te levar e alegar a lei da vida. Não me conformo, e vais perdoar-me se te peço sempre o impossível. Merecias viver para sempre, recolhido nessa inocência bonita que me faz querer sentar-me ao teu colo novamente, perceber que perto de ti nunca existiram bichos maus e que terás sempre vontade de me construir mais um baloiço.  E olha, nunca conheci nenhum coração do tamanho do teu. E…

raízes

Quando tenho saudades tuas escrevo-te. Rasuro-te os defeitos e sobra-me o travo a mel que a tua pele emana. Ah, e como me perco nisso. Sobre o meu corpo, o arrepio típico e o choque da realidade. Custa, custa mesmo. Mas a gente sobrevive, como quem ri para não chorar.   Devias saber do exaltar de sentimentos que me correm no peito. Eu devia contar-te, escrever-te um livro com todos os passos para chegar ao amor de verdade, ilustrá-lo com o meu coração cheio de ti e depois explicar-te que mo deixaste estéril. Com as raízes cortas junto ao caule.   Agora não escrevo histórias felizes. Tu já não me adormeces e eu já não posso morrer de amores por ti.  Mas eu gosto disto de tocar na ferida, desafiar o corpo e a mente a aguentar a carga de memórias que deposito em cada bocado de ti que aqui deixo. E tu sabes que te escrevo. Como uma doida, até se me cansarem as entranhas, até que me sangrem os dedos. Tu sabes que te escrevo. E que, por algum motivo, sempre que escrevo o faço para ti. De m…

migalhas

Estás à espera que eu te escreva, desesperada e infeliz. Coitada de mim. Hoje não, hoje tenho as pálpebras pesadas e os dedos cansados. Tenho a barriga cheia de números e já à algum tempo que não sinto o coração. Encolheu-se, entrou em modo de ervilha assustada e já não me salta pela boca.  Hoje não tenho tempo para ti, nem para nós, nem para as bailarinas que meto a rodopiar em cima do piano. Aos poucos perco tudo o que te diz respeito. As rotinas que até ontem se assemelhavam a um tremendo vazio parecem-me agora tão longínquas que não sei se lá saberia voltar. Esqueci-me de deixar migalhas pelo caminho. E talvez seja melhor assim, sem batota.   Perdoa-me se te deixar, se te esquecer, se não souber voltar. Perdoa-me o coração que se perdeu algures. Perdoa-me, perdoa-me a falta de tempo. Que eu perdoo-te a falta de amor.

karma

O teu nome ainda arranha no meu peito, continuo a soluçar levemente quando o pronuncio exercendo sobre os lábios uma força que desconheço. Aprendi a controlar as lágrimas, os sorrisos tristes e as caras feias. Mas o teu nome, o teu nome desenha um risco profundo nos meus ouvidos que me desce directamente ao coração. Tremo, tremo por dentro e o meu sangue congela.   Não quero ouvir falar de ti (irónico quando passo a vida a escrever-te). Melhor, não quero o teu nome escrito nas linhas e nas entrelinhas, nas paredes do meu quarto, na calçada da rua. Prefiro rasurar o pouco que me resta de forma lenta, aliás, como rasuro e apago todas as outras coisas na minha vida.  Conheces-me muito bem e talvez seja por isso que nunca me tenha entregado a nenhuma outra criatura -excluindo então todas as tentativas falhadas de entrega e de paixão louca que resultaram em dias vazios a engolir a frustração e a tristeza alheia, como se do karma realmente se tratasse.  Tiveste de mim o todo e sabe-lo tão…

stop

Dobra a esquina, voa, carrega no stop. Não pares, não olhes, não esperes. Voa, isso, voa até não teres mais céu por onde voar. Sê, sê tudo enquanto não és nada e ninguém vai reparar. Erra, sem medo e até que te doam as entranhas. Atreve-te a sonhar porque o segredo está na essência, no tempo que perdeste, em tudo o que não disseste. E ama. O amor é uma coisa rara.
p.s: começo a odiar matemática. estes pequenos momentos de paz sabem que nem ginjas.


kill (me)

Mata-me as saudades. Vem até mim, deixa-me viver tudo outra vez como se nunca nada no peito se tivesse quebrado. Relembra-me o arrepio da espinha, o fechar das pálpebras quando tenho a certeza que é amor. Mata-me o orgulho, que ferve só de pensar que podes voltar. Trás-me o cheiro, as memórias, o timbre da voz que não se compara a mais nenhum. Limpa-me as lágrimas, devolve-me o sono. Sufoca-me nesse abraço, naquele abraço. Respira fundo perto do meu ouvido, eriça-me a pele enquanto me deixas nas nuvens. Faz-me acreditar, encaixa-te em mim. Não tenhas medo, mata-me as saudades. Ou, se não bastar, mata-me a mim. De amor. Amor puro, de verdade, aquele que costumávamos ter. Amor sem tempo e sem perguntas. Amor de baloiço, amor de crianças. O nosso. Sempre, nosso.
p.s: Deixa-me lá escrever o que sinto e o que não sinto. Deixa-me a alma leve. Deixa.