Avançar para o conteúdo principal

Mensagens

lugar ao sol

Vamos. Está na hora de partir. Sem olhar para trás. Sem que as pedras da calçada nos façam tropeçar e voltar atrás. Não é tempo de recuar. Este é o momento, não existem mais desculpas nem lágrimas por verter. Tudo o que precisamos está do lado de lá, perto do aconchego leve da brisa que nos anuncia a liberdade, o bater certo das horas e dos minutos, o começar de novo e outra vez. Como se não existisse um ontem conturbado e um amanhã assustador. O medo é dos fracos, dos que desistem. Deixa o medo para quem precisa dele. Para quem ainda não tem de avançar. Consome agora a oportunidade que te é dada para voar mais alto. E voa.  Não há como não lamentar. As memórias são roupas velhas que não tens coragem de deitar fora. São pequenos rabiscos naquele álbum de fotografias que te mostra o quanto já foste feliz. O quanto sorriste e o quanto te fizeram sorrir. São os rostos alegres daqueles que já foram. Para outro mundo ou para a sua própria vida. Lamenta. Isso. Diz que lamentas. Mas não há…

massa cinzenta

Conforta-me saber que estás aí. Que na realidade, hás-de sempre estar. Sei que me conheces por dentro e é bom voltar a mim sempre que estou contigo. Embora nem sempre respeites o meu espaço, a distância necessária entre as tuas palavras e o meu coração, eu gosto de te ter por perto. Prefiro sentir o teu perfume ainda a despontar duvidas na minha corrente sanguínea, a não sentir nada. É sempre melhor quando não deixamos que o amor se vá por completo, ele fica ali a marinar no fundo do peito e aconchega-nos o ego assim como acalma a revolta e o medo do futuro. E mesmo que um dia não saibamos o nome dessa massa cinzenta que nos corre por inércia nas veias, sabemos que foi bom viver para a poder sentir. E por mais que isso nos afaste dos outros, aproxima-nos de nós próprios.  Não suportaria perder o amor que tenho por ti. Sei que me alimentas a aorta e que nenhuma outra criatura o faria tão bem. Não venderia memória nenhuma, embora abdicasse de todos os dissabores que outrora me fizeram…

pássaro que não sabe voar

Fechei o coração. Pensei em escrever-te para te informar, desenhar bem as palavras para que me aches credível e ser breve só para não parecer muito carente. Embora pareça sempre um pouco, eu sei. Deixei que a nostalgia deste coração novo se abatesse sobre a minha cabeça. Ainda tinha demasiadas saudades tuas para poder esperar, para desejar outro corpo e outra alma a levitar perto da minha; estava demasiado frágil para aguentar o copo meio cheio novamente.   Então, decidi esperar. Esperar para te dizer que me cansei sinceramente, que dentro do meu peito só moram agora as duvidas, o ressentimento que podes apreciar no meu tom magoado ao te escrever.  Só te sei falar do amor que gostava que tivesses sentido por mim. E talvez um pouco daquele que eu idealizei e que por um motivo ou outro acabei por deixar fugir. Sei falar-te agora do medo que tenho dos outros, da velocidade estúpida com que fujo de quem me afaga o ego. Da maneira arisca com que encaro o amor e todos os seus derivados.  G…

amor de papel

A velocidade com que te despedias era assustadora. O meu corpo estremeceu levemente e deixaste as memórias todas dentro de mim. O sangue que me descia agora ao coração com um ritmo de conta-gotas deixava a realidade bem mais perto. Tu já não estavas ali e eu tinha de aceitar. Tinha.  As despedidas mordem-me os sentidos até à exaustão. Deixam-me seca, infértil, com um aspecto baço. Aquela despedida acontecia todas as noites e eu já não sabia adormecer. Acho que nunca contei a ninguém. Doía-me o peito. Estavas sempre a abandonar-me, e pior, já não podias acordar-me do pesadelo, já não podias gritar-me baixinho que era mentira. O meu subconsciente só tinha o prazer de mo relembrar. A despedida, o adeus doloroso e cheio de espinhos. Coberto de palavras que se enrolavam agora num nó cego. Despedida de um amor de papel.  Frágeis. Porcelana. Éramos agora tão quebradiços. Odiavas-me e eu odiava-te. O mais infantil dos ódios. Só porque não te podia amar. Só porque não me deixavas fazê-lo, nu…

borboletas

Ele era tudo o que ela tinha. Era, porque não é mais. Deixou de ser, vá-se lá saber se se foi embora, se teve mesmo de partir. E quem parte, já não volta. Ouvira em tempos que o mais importante será resguardar o coração para aqueles que realmente merecem recebê-lo. Mas não serviu de nada. Nada serviu de nada. Ali estava ela, a dar o impossível, a prometer o improvável. Ela queria, e não há nada que impeça uma mulher de querer. Desejar até que se lhe doam as entranhas e o peito, do querer descabido e irracional.  Naquele momento, ele era tudo o que ela tinha. Era o chão da casa velha que construíram os dois, em tempos felizes que hoje despertavam nela o desejo incessante de reviver o passado outra e outra vez. Eram as flores colhidas entre a felicidade doida que é amar alguém que pode estar ao nosso lado, a gastar os ínfimos segundos da sua vida connosco, a encher-nos o peito de ar, coração de sangue e o estômago de borboletas. Ele era tudo. E ela ficou sem nada. Porque ele, ele part…

castelos e corações

Sabes o derradeiro momento, aquele em que finalmente consegues dar dois passos em frente, sem olhar para trás, sem te lembrares sequer que já foste infeliz e que o mundo te pode magoar. Isso surge e sentes que és novamente dono da tua vida, não há nada que te pare naquele segundo porque tu estás a viver, novamente, estás a ser, a existir, a tocar nos outros e a deixar que te toquem, lentamente, até que te levem onde já não vais à imenso tempo.  Nada como a bonança, o descanso do guerreiro que se revela, no entanto, a parte da história onde este finalmente se move. Move-se em prol de um bem maior: ele mesmo. Tal como tu. Tu que te apercebes que não há mais feridas em aberto no teu peito, que o passado é um tempo chato que tens de esquecer e que as mágoas são necessárias para que os sorrisos façam, de uma vez por todas, sentido.  Sabes aquele perfume, - aquele mesmo - já não desponta na tua corrente sanguínea a agitação de outrora, já não derruba o muro de coisas altas que ergueste só…

num lugar qualquer

Olhava à minha volta e só tentava buscar explicações. Nas paredes, no ar, no tecto do meu quarto quase deserto. Tentei a todo o custo achar a razão, o motivo pelo qual me sentia tão estúpida e tão frágil naquele momento. Pensei em tudo, pensei que tudo me poderia acontecer ali e naquele instante que nada me iria doer tanto como o vazio. O vazio no meio da barulheira que os que ainda cuidam de mim erguem à minha volta. Pior do que o silêncio dos outros, é o nosso próprio silêncio.   Apertei-me com força contra a almofada e contrariei as lágrimas teimosas que não surgiam à imenso tempo. Não queria chorar, não queria aumentar as razões que o mundo inteiro tinha para me gritar que não estava feliz. Eu estava, eu queria tanto estar. Quis tanto que fosse mentira e que a paz dos últimos meses - que não se revelou nada mais do que uma anestesia a curto prazo - não se tivesse dissipado com o meu pequeno ataque de fúria. Afinal, eu só queria uma explicação. Queria pertencer a algum lugar, enc…