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Mensagens

aviso prévio

Estou cansada de escrever sobre o passado. De me arrepender nas manhãs em que acordo e sonhei contigo. Há uma parte de mim que teima em manter-te vivo, como aviso prévio para não cometer erros no futuro. Deve ser por isso que as mulheres demoram a esquecer os homens. Querem apenas garantir que não cometem o mesmo erro. Pelo menos, com pessoas diferentes.

léguas

Estava na hora. Fechei-te todas as portas e pus-me a léguas. O coração parecia-me tão apertado dentro do peito mas senti-me orgulhosa por não lhe dar ouvidos. Era a primeira vez em muito tempo que cuidava de mim; o ego acenou-me poeirento, despertava agora de um sono profundo. Demorei muito tempo a voltar a gostar de mim. Acho que nunca o escrevi antes. A verdade é tão dura de ler como de se dizer. As desilusões afogam-me numa melancolia profunda, fico horas a marinar a tristeza e a tentar perceber o que correu mal. A dor que me trouxeste foi em tão grande parte por minha culpa que ainda hoje lamento por mim e não por ti.   Levei tempo a aceitar-me. A querer-me de volta na minha própria vida. Estive muito tempo sem me encarar, sem responder aos meus próprios sentidos, sem desejar nem esperar nada dos outros porque já não sabia esperar. Perdi-me algures. E muito provavelmente, precisei de me perder assim. Tal como precisei de me encontrar aos poucos até içar a bandeira branca e enten…

bicho feio

Deixaste comigo o pior de ti. Incutiste-me o teu medo estúpido do futuro, a preguiça permanente que os assuntos sérios te trazem e até a incapacidade de perceber qual é o limite. Às vezes, sinto-me tão próxima de ti que o tempo parece não passar. Fico ali quieta a ver-te correr por dentro dos meus olhos, a baralhar-me o cérebro. Sempre o fizeste tão bem.  Ao mesmo tempo obrigo-os a perceber. Fomos muito próximos. Eu vivi o meu amor por ti até à última gota, quis sempre o dobro do que me podias dar e nunca me senti cansada por tentar. Talvez me sinta um pouco hoje. Uma ressaca acumulada de medos e inseguranças aos quais pensei ter sobrevivido. Só hoje quando olho para os estragos que fizeste na minha vida é que consigo perceber o quão destruída posso estar. Uma decadência bem moldada, presa às minhas entranhas, como um bicho feio que não se vai embora. Por mais que tente, por mais que o arranque com dentadas ferozes, ele regressa e acena-me no meio da minha própria confusão.  É ridíc…

ar puro

Está a aquecer-me o coração. Está a secar-me as lágrimas e a limpar-me a memória. Está a provar-me que posso ser feliz e está a permitir a si mesmo sê-lo. Nada melhor que isto. A bonança depois da tempestade. O doce depois do amargo. As borboletas medrosas. A minha insegurança e os seus braços para me amparar. É novo, é bonito. É ar puro e renovado. Está a fazer-me bem. E só por isso, merece o mundo.

lugar ao sol

Vamos. Está na hora de partir. Sem olhar para trás. Sem que as pedras da calçada nos façam tropeçar e voltar atrás. Não é tempo de recuar. Este é o momento, não existem mais desculpas nem lágrimas por verter. Tudo o que precisamos está do lado de lá, perto do aconchego leve da brisa que nos anuncia a liberdade, o bater certo das horas e dos minutos, o começar de novo e outra vez. Como se não existisse um ontem conturbado e um amanhã assustador. O medo é dos fracos, dos que desistem. Deixa o medo para quem precisa dele. Para quem ainda não tem de avançar. Consome agora a oportunidade que te é dada para voar mais alto. E voa.  Não há como não lamentar. As memórias são roupas velhas que não tens coragem de deitar fora. São pequenos rabiscos naquele álbum de fotografias que te mostra o quanto já foste feliz. O quanto sorriste e o quanto te fizeram sorrir. São os rostos alegres daqueles que já foram. Para outro mundo ou para a sua própria vida. Lamenta. Isso. Diz que lamentas. Mas não há…

massa cinzenta

Conforta-me saber que estás aí. Que na realidade, hás-de sempre estar. Sei que me conheces por dentro e é bom voltar a mim sempre que estou contigo. Embora nem sempre respeites o meu espaço, a distância necessária entre as tuas palavras e o meu coração, eu gosto de te ter por perto. Prefiro sentir o teu perfume ainda a despontar duvidas na minha corrente sanguínea, a não sentir nada. É sempre melhor quando não deixamos que o amor se vá por completo, ele fica ali a marinar no fundo do peito e aconchega-nos o ego assim como acalma a revolta e o medo do futuro. E mesmo que um dia não saibamos o nome dessa massa cinzenta que nos corre por inércia nas veias, sabemos que foi bom viver para a poder sentir. E por mais que isso nos afaste dos outros, aproxima-nos de nós próprios.  Não suportaria perder o amor que tenho por ti. Sei que me alimentas a aorta e que nenhuma outra criatura o faria tão bem. Não venderia memória nenhuma, embora abdicasse de todos os dissabores que outrora me fizeram…

pássaro que não sabe voar

Fechei o coração. Pensei em escrever-te para te informar, desenhar bem as palavras para que me aches credível e ser breve só para não parecer muito carente. Embora pareça sempre um pouco, eu sei. Deixei que a nostalgia deste coração novo se abatesse sobre a minha cabeça. Ainda tinha demasiadas saudades tuas para poder esperar, para desejar outro corpo e outra alma a levitar perto da minha; estava demasiado frágil para aguentar o copo meio cheio novamente.   Então, decidi esperar. Esperar para te dizer que me cansei sinceramente, que dentro do meu peito só moram agora as duvidas, o ressentimento que podes apreciar no meu tom magoado ao te escrever.  Só te sei falar do amor que gostava que tivesses sentido por mim. E talvez um pouco daquele que eu idealizei e que por um motivo ou outro acabei por deixar fugir. Sei falar-te agora do medo que tenho dos outros, da velocidade estúpida com que fujo de quem me afaga o ego. Da maneira arisca com que encaro o amor e todos os seus derivados.  G…