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Mensagens

começar

Eles não sabem que me magoaste. Não sabem que me deixaste fechada numa concha cheia de medo do mundo. É por isso que acham que me podes fazer feliz. Que me enches o peito de ar e a cabeça de ideias.  Eles gostam da cor da minha pele quando estás por perto. Falam-me do brilho que ganho nos olhos. Do sorriso sincero e das ideias bonitas. Não têm medo que me quebres porque não sabem que és capaz. Acham mesmo que te venço em três tempos. Que te expulso do meu espaço ao mínimo deslize e que sei ser dona da minha vida.  Eles não sabem que me magoaste. Querem-me feliz porque não percebem que me deixaste triste. Que me colaste ao peito a melancolia de uma despedida pouco sincera. Não sabem que dói. Que ainda dói. Que talvez vá doer sempre porque feridas a sério deixam cicatrizes. Não percebem quem és. Não te percebem como eu percebo e por isso não sabem. Não sabem que não és para mim. Que trazes ao de cima todas as minhas dúvidas. Que me relembras o quão posso ser infeliz. Tal como a imensi…

aviso prévio

Estou cansada de escrever sobre o passado. De me arrepender nas manhãs em que acordo e sonhei contigo. Há uma parte de mim que teima em manter-te vivo, como aviso prévio para não cometer erros no futuro. Deve ser por isso que as mulheres demoram a esquecer os homens. Querem apenas garantir que não cometem o mesmo erro. Pelo menos, com pessoas diferentes.

léguas

Estava na hora. Fechei-te todas as portas e pus-me a léguas. O coração parecia-me tão apertado dentro do peito mas senti-me orgulhosa por não lhe dar ouvidos. Era a primeira vez em muito tempo que cuidava de mim; o ego acenou-me poeirento, despertava agora de um sono profundo. Demorei muito tempo a voltar a gostar de mim. Acho que nunca o escrevi antes. A verdade é tão dura de ler como de se dizer. As desilusões afogam-me numa melancolia profunda, fico horas a marinar a tristeza e a tentar perceber o que correu mal. A dor que me trouxeste foi em tão grande parte por minha culpa que ainda hoje lamento por mim e não por ti.   Levei tempo a aceitar-me. A querer-me de volta na minha própria vida. Estive muito tempo sem me encarar, sem responder aos meus próprios sentidos, sem desejar nem esperar nada dos outros porque já não sabia esperar. Perdi-me algures. E muito provavelmente, precisei de me perder assim. Tal como precisei de me encontrar aos poucos até içar a bandeira branca e enten…

bicho feio

Deixaste comigo o pior de ti. Incutiste-me o teu medo estúpido do futuro, a preguiça permanente que os assuntos sérios te trazem e até a incapacidade de perceber qual é o limite. Às vezes, sinto-me tão próxima de ti que o tempo parece não passar. Fico ali quieta a ver-te correr por dentro dos meus olhos, a baralhar-me o cérebro. Sempre o fizeste tão bem.  Ao mesmo tempo obrigo-os a perceber. Fomos muito próximos. Eu vivi o meu amor por ti até à última gota, quis sempre o dobro do que me podias dar e nunca me senti cansada por tentar. Talvez me sinta um pouco hoje. Uma ressaca acumulada de medos e inseguranças aos quais pensei ter sobrevivido. Só hoje quando olho para os estragos que fizeste na minha vida é que consigo perceber o quão destruída posso estar. Uma decadência bem moldada, presa às minhas entranhas, como um bicho feio que não se vai embora. Por mais que tente, por mais que o arranque com dentadas ferozes, ele regressa e acena-me no meio da minha própria confusão.  É ridíc…

ar puro

Está a aquecer-me o coração. Está a secar-me as lágrimas e a limpar-me a memória. Está a provar-me que posso ser feliz e está a permitir a si mesmo sê-lo. Nada melhor que isto. A bonança depois da tempestade. O doce depois do amargo. As borboletas medrosas. A minha insegurança e os seus braços para me amparar. É novo, é bonito. É ar puro e renovado. Está a fazer-me bem. E só por isso, merece o mundo.

lugar ao sol

Vamos. Está na hora de partir. Sem olhar para trás. Sem que as pedras da calçada nos façam tropeçar e voltar atrás. Não é tempo de recuar. Este é o momento, não existem mais desculpas nem lágrimas por verter. Tudo o que precisamos está do lado de lá, perto do aconchego leve da brisa que nos anuncia a liberdade, o bater certo das horas e dos minutos, o começar de novo e outra vez. Como se não existisse um ontem conturbado e um amanhã assustador. O medo é dos fracos, dos que desistem. Deixa o medo para quem precisa dele. Para quem ainda não tem de avançar. Consome agora a oportunidade que te é dada para voar mais alto. E voa.  Não há como não lamentar. As memórias são roupas velhas que não tens coragem de deitar fora. São pequenos rabiscos naquele álbum de fotografias que te mostra o quanto já foste feliz. O quanto sorriste e o quanto te fizeram sorrir. São os rostos alegres daqueles que já foram. Para outro mundo ou para a sua própria vida. Lamenta. Isso. Diz que lamentas. Mas não há…

massa cinzenta

Conforta-me saber que estás aí. Que na realidade, hás-de sempre estar. Sei que me conheces por dentro e é bom voltar a mim sempre que estou contigo. Embora nem sempre respeites o meu espaço, a distância necessária entre as tuas palavras e o meu coração, eu gosto de te ter por perto. Prefiro sentir o teu perfume ainda a despontar duvidas na minha corrente sanguínea, a não sentir nada. É sempre melhor quando não deixamos que o amor se vá por completo, ele fica ali a marinar no fundo do peito e aconchega-nos o ego assim como acalma a revolta e o medo do futuro. E mesmo que um dia não saibamos o nome dessa massa cinzenta que nos corre por inércia nas veias, sabemos que foi bom viver para a poder sentir. E por mais que isso nos afaste dos outros, aproxima-nos de nós próprios.  Não suportaria perder o amor que tenho por ti. Sei que me alimentas a aorta e que nenhuma outra criatura o faria tão bem. Não venderia memória nenhuma, embora abdicasse de todos os dissabores que outrora me fizeram…