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Mensagens

veneno

Acordei novamente sozinha. Depois de tanto tempo a conviver com a ausência e uma cama vazia, sentia agora pelo corpo o frio daquele inverno demorado. Adormeci a ler uma história de amor. Páginas e páginas de declarações feitas com o coração e tantas vezes misturadas com o prazer mórbido que é amar alguém só porque sim.  Percebi que perdia tempo. As paixões fugazes não ficavam para me aquecer o esqueleto congelado, não me reconfortavam o ego moribundo nem me faziam sentir na pele o arrepio de um amo-te sussurrado ao ouvido. Tanto tempo a fugir do amor para acabar sozinha. O melhor teria sido entregar-me sempre, cabeça, tronco e membros, sem medo dos arranhões e dos dissabores que por aí vinham. Gostava de ter arriscado mais. E embora falte muito tempo para a minha vida acabar, sei que não posso mudar o que construí. O meu medo não foge - nem mesmo quando encho o peito de ar e o coração de esperança. Eu é que fujo dele.  Entendi que à muito tempo que não buscava o amor nos outros. Gan…

sei

Sei do teu medo. Conheço por dentro esse labirinto de inseguranças e a busca incessante por um chão seguro. Também eu procuro nos outros o que me falha, o que por azar não me corre nas veias, aquilo que a natureza, os astros ou a sina não deixaram que fizesse parte do meu destino.
Sei do coração partido. Dos mil pedaços que és obrigado a procurar, sozinho, encaixando peça por peça até que to partam mais uma vez. Sei do pessimismo, das noites em claro a pensar que nunca nada muda, das lágrimas que deixas na almofada porque mais ninguém precisa de saber nada sobre ti.
 Compreendo a desconfiança. O pé sempre atrás, à espera da próxima queda. O olhar descomprometido com o mundo, a fraqueza dos músculos, a incapacidade de usar o corpo e sair à rua. E ainda assim, erguer da cama o esqueleto enferrujado para que o sol brilhe mais uma vez.
Sei das madrugadas de folia, dos olhares furtivos, da esperança num amanhã melhor. Sei do carácter fugidio, das desculpas pouco coerentes para não deixar…

azul

E, de repente, olhas à tua volta e está tudo mudado. O mundo girou e saiu tudo do lugar, as pessoas cresceram e muitas seguiram rumos diferentes. É uma questão de tempo até que sintas o peso da mudança, as saudades a roerem-te o peito devagarinho, quando as horas não querem passar. Já não és uma criança. Já nada é azul. Conheces o preto e deixas de ter (tanto) medo do escuro. Na ingenuidade da tua mente ainda te vais perguntar muitas vezes porquê. O porquê de os bichos maus não se dissiparem com a infância, e desta vez, poderem realmente magoar. Vais perguntar-te porque é que já não cabes no colo da mãe e porque é que os problemas não desaparecem quando precisas de dormir.  Um dia acordas e o globo deu uma volta de cento e oitenta graus. Os caminhos já não são seguros e já ninguém te vai dizer por onde seguir. Um dia tens o poder de escolher nas tuas mãos e só queres que alguém te leve. A nostalgia da infância não está na ausência das brincadeiras inocentes ou da falta de capacidade…

começar

Eles não sabem que me magoaste. Não sabem que me deixaste fechada numa concha cheia de medo do mundo. É por isso que acham que me podes fazer feliz. Que me enches o peito de ar e a cabeça de ideias.  Eles gostam da cor da minha pele quando estás por perto. Falam-me do brilho que ganho nos olhos. Do sorriso sincero e das ideias bonitas. Não têm medo que me quebres porque não sabem que és capaz. Acham mesmo que te venço em três tempos. Que te expulso do meu espaço ao mínimo deslize e que sei ser dona da minha vida.  Eles não sabem que me magoaste. Querem-me feliz porque não percebem que me deixaste triste. Que me colaste ao peito a melancolia de uma despedida pouco sincera. Não sabem que dói. Que ainda dói. Que talvez vá doer sempre porque feridas a sério deixam cicatrizes. Não percebem quem és. Não te percebem como eu percebo e por isso não sabem. Não sabem que não és para mim. Que trazes ao de cima todas as minhas dúvidas. Que me relembras o quão posso ser infeliz. Tal como a imensi…

aviso prévio

Estou cansada de escrever sobre o passado. De me arrepender nas manhãs em que acordo e sonhei contigo. Há uma parte de mim que teima em manter-te vivo, como aviso prévio para não cometer erros no futuro. Deve ser por isso que as mulheres demoram a esquecer os homens. Querem apenas garantir que não cometem o mesmo erro. Pelo menos, com pessoas diferentes.

léguas

Estava na hora. Fechei-te todas as portas e pus-me a léguas. O coração parecia-me tão apertado dentro do peito mas senti-me orgulhosa por não lhe dar ouvidos. Era a primeira vez em muito tempo que cuidava de mim; o ego acenou-me poeirento, despertava agora de um sono profundo. Demorei muito tempo a voltar a gostar de mim. Acho que nunca o escrevi antes. A verdade é tão dura de ler como de se dizer. As desilusões afogam-me numa melancolia profunda, fico horas a marinar a tristeza e a tentar perceber o que correu mal. A dor que me trouxeste foi em tão grande parte por minha culpa que ainda hoje lamento por mim e não por ti.   Levei tempo a aceitar-me. A querer-me de volta na minha própria vida. Estive muito tempo sem me encarar, sem responder aos meus próprios sentidos, sem desejar nem esperar nada dos outros porque já não sabia esperar. Perdi-me algures. E muito provavelmente, precisei de me perder assim. Tal como precisei de me encontrar aos poucos até içar a bandeira branca e enten…

bicho feio

Deixaste comigo o pior de ti. Incutiste-me o teu medo estúpido do futuro, a preguiça permanente que os assuntos sérios te trazem e até a incapacidade de perceber qual é o limite. Às vezes, sinto-me tão próxima de ti que o tempo parece não passar. Fico ali quieta a ver-te correr por dentro dos meus olhos, a baralhar-me o cérebro. Sempre o fizeste tão bem.  Ao mesmo tempo obrigo-os a perceber. Fomos muito próximos. Eu vivi o meu amor por ti até à última gota, quis sempre o dobro do que me podias dar e nunca me senti cansada por tentar. Talvez me sinta um pouco hoje. Uma ressaca acumulada de medos e inseguranças aos quais pensei ter sobrevivido. Só hoje quando olho para os estragos que fizeste na minha vida é que consigo perceber o quão destruída posso estar. Uma decadência bem moldada, presa às minhas entranhas, como um bicho feio que não se vai embora. Por mais que tente, por mais que o arranque com dentadas ferozes, ele regressa e acena-me no meio da minha própria confusão.  É ridíc…