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Mensagens

para ficar

Não sei ao certo quando deixamos de amar alguém. Não sei sequer se isso alguma vez acontece, se o amor apenas se transforma e se aperta dentro do peito. É por isso que nos custa tanto perder quem amamos. Os sentimentos compactam-se todos, numa reacção tão química que parece física, as memórias lá se enrolam bem umas às outras e o ser até parece renascer uns meses depois. Mas essa coisa da dor, tem que se lhe diga. Não passa, não atenua mesmo que durmamos horas sobre o assunto. Continua ali, atrás da porta e entre as letras das músicas e as vírgulas dos livros. Não há analgésico, antidepressivo ou mesmo veneno fatal que nos remova do sangue o desgosto e a tristeza, as lágrimas de meia noite que até podiam ter ficado debaixo da almofada, mas por serem quase tão potentes como persistentes, nos correm pela cara assim que tocamos na ferida.  Deve ser por isso que gosto de escrever. Melhor, que me perco a escrever. Essa coisa da dor fica no papel, consigo olhar para ela, vê-la em forma, co…

um só

Falei-te tantas vezes de amor. Vezes de mais, até. No meio do teu avesso conseguias inserir-me na confusão e amar-me também, eu sei. Mas hoje já não falo de nós os dois. Talvez ainda escreva insistentemente sobre o que nos uniu, só mesmo porque foi bonito e não resisto. Envio-te sempre uma última carta quando tenho saudades tuas e já não me lembro de como era bom poder deixar o coração encarregue da caneta e do papel.  Agora as palavras saem com mais dificuldade. No meu peito não palpita a mágoa e já não vou chamar-te nomes feios na esperança de te varrer de dentro da minha cabeça. Hoje gosto de te ter cá. Gosto de abraçar as memórias, gosto de saber que fui feliz e que é agora possível sê-lo de mil modos. Mas sei, sei bem que o amor nos arrebata e nos derrota. O sacana sabe mesmo como encher a vida de sons agradáveis e esperas maravilhosas. Um tanto ao quanto de envolvimento perfeito e sublime, como uma droga fatal que não mata e vai moendo até que haja esperança.  Falei-te tantas v…

desapego e encontrões

Dizia-te silenciosamente e aos poucos que me encontrava farta. Completamente saturada. Olhavas para mim como quem pergunta como, se ainda agora comecei. Tenho de te explicar que na memória da minhas células ainda vivem os medos de um passado pouco claro. Ou talvez não. Talvez fique em silêncio porque me cansei de falar.  Preciso de sossego. De um cesto cheio de flores e de adormecer perto de uma respiração serena. Há muito tempo que a minha vida não assenta num pilar seguro. São cordas bambas atadas umas ás outras. São sonhos desfeitos e muitas expectativas amontoadas atrás da porta.  Podes nem saber porquê, mas não posso esperar por ti. O meu caminho é feito de esperas vãs. Preciso de recomeçar levemente. Preciso de abrir a janela e sentir que o mundo lá fora espera por mim. E não apenas estes surtos de felicidade absoluta que se revelam verdadeiras tentativas frustradas de concretização. Eu mereço mais, o meu ego adormecido merece mais, só eu é que não percebi.  Os dias ficam cinz…

escrever-te

"Escrever-te. 
Possivelmente irei fazê-lo mais vezes até ver se no escrever se me esgota a tua fascinação...
E eu sinto-me logo tão infeliz. E digo-te não vás. 
Fica. Para sempre. Há em mim uma luta entre o desejo de que te esqueça e o de endoidecer contigo."

Vergílio Ferreira in Cartas a Sandra

equilíbrio

Sentei-me algures sobre a minha própria consciência, procurei soluções, motivos, razões. Agora que podia finalmente descansar, agora que no meu peito já não pulsava um coração descontrolado, eu buscava explicações. É assustador quando tudo o que tomamos como certo dá, afinal, errado. É tão difícil engolir os sonhos, digerir os projectos para o futuro e todo o tempo que levámos a construir o castelo.
 Mas esta paz não tem preço, é verdade. A consciência plena de que se moveu os céus para que os astros conspirassem a favor. E engano-me cada vez que penso que posso recuperar o esforço e o pedaço de coração que ficou do outro lado. É como querer mudar o destino - inútil.  O tempo passa e vou ganhando equilíbrio. Já não me sinto frágil, a mágoa trouxe-me uma confiança que desconhecia, como uma armadura pronta a ser estreada. A corda bamba já não me parece tão aliciante como antes e prefiro agora jogar pelo seguro.  Embora as memórias ainda me custem, ainda me mordam a garganta e lá façam…

veneno

Acordei novamente sozinha. Depois de tanto tempo a conviver com a ausência e uma cama vazia, sentia agora pelo corpo o frio daquele inverno demorado. Adormeci a ler uma história de amor. Páginas e páginas de declarações feitas com o coração e tantas vezes misturadas com o prazer mórbido que é amar alguém só porque sim.  Percebi que perdia tempo. As paixões fugazes não ficavam para me aquecer o esqueleto congelado, não me reconfortavam o ego moribundo nem me faziam sentir na pele o arrepio de um amo-te sussurrado ao ouvido. Tanto tempo a fugir do amor para acabar sozinha. O melhor teria sido entregar-me sempre, cabeça, tronco e membros, sem medo dos arranhões e dos dissabores que por aí vinham. Gostava de ter arriscado mais. E embora falte muito tempo para a minha vida acabar, sei que não posso mudar o que construí. O meu medo não foge - nem mesmo quando encho o peito de ar e o coração de esperança. Eu é que fujo dele.  Entendi que à muito tempo que não buscava o amor nos outros. Gan…

sei

Sei do teu medo. Conheço por dentro esse labirinto de inseguranças e a busca incessante por um chão seguro. Também eu procuro nos outros o que me falha, o que por azar não me corre nas veias, aquilo que a natureza, os astros ou a sina não deixaram que fizesse parte do meu destino.
Sei do coração partido. Dos mil pedaços que és obrigado a procurar, sozinho, encaixando peça por peça até que to partam mais uma vez. Sei do pessimismo, das noites em claro a pensar que nunca nada muda, das lágrimas que deixas na almofada porque mais ninguém precisa de saber nada sobre ti.
 Compreendo a desconfiança. O pé sempre atrás, à espera da próxima queda. O olhar descomprometido com o mundo, a fraqueza dos músculos, a incapacidade de usar o corpo e sair à rua. E ainda assim, erguer da cama o esqueleto enferrujado para que o sol brilhe mais uma vez.
Sei das madrugadas de folia, dos olhares furtivos, da esperança num amanhã melhor. Sei do carácter fugidio, das desculpas pouco coerentes para não deixar…