Avançar para o conteúdo principal

Mensagens

selos

Há dias em que sinto saudades do amor. Saudades de tê-lo a bater-me à janela num domingo de manhã; de vê-lo acenar-me por de entre a multidão, tornando tudo o resto quase tão minúsculo como inútil. Nada ridiculariza tanto o mundo como um coração cheio. Nada sabe tão bem como um sábado de mimos e as mãos entrelaçadas debaixo do cobertor. Aquela coisa de ter alguém a segurar-nos em cima da palma da mão, com a confiança plena de que nunca, jamais, nos irá deixar cair. Mesmo que um dia, não só nós mas o mundo, desmorone.  Tenho saudades da confiança. Dos segredos e dos medos que não se partilha com mais ninguém. Saudades até de coleccionar manhas e manias, com o mesmo prazer e disposição de quem colecciona selos.   Mas, e ao mesmo tempo, não queria nada voltar a sentir o peito apertado. A almofada demasiado pesada para as horas em que o sono não chega porque o incerto nos inquieta a aorta. Acho que me cansei de amores vadios. Amores irrequietos, avassaladores. Não sei se haverá outra fo…

amor

Não poderia ter-te dado mais. Dar-te mais era dar-te as artérias e tudo o que em mim é físico, e isso, acredita, nunca teria sido nada. Há nas pessoas uma afeição pelo corpo do outro, pelos olhos do outro, pelo cabelo que se desgrenha com o vento. O que é físico é passageiro. É efémero. Um dia o espelho acorda mal disposto e desenha-nos milhões de rugas no rosto, irregularidades no corpo e um ar estafado sobre o olhos. E, se o amor for palpável, tudo desaba e o mundo acaba.   Dar o corpo não é dar a alma. O prazer não é o mesmo, não pode ser. Dar a alma é dar um bocado de nós, se não o todo. Dar o corpo é dar a carne. E se te tivesse dado o meu esqueleto enferrujado, acredita que não terias sido feliz. Dar-te o meu coração foi dar-te tudo. Foi entregar-te a minha vida em mãos, dizer-te em segredo que tomasses (por favor) conta de mim, e esperar inquieta que nunca me quebrasses, que nunca nos quebrasses. O que fizeste comigo, não interessa. A mágoa morreu lá atrás. Há quem ame almas …

tentar

Abro e fecho os olhos. Há leveza nos gestos, o corpo repousa sobre ele próprio, sem ser preciso recostar-se num abraço mais fechado ou num beijo de boa noite. Respiro fundo porque posso e nunca apreciei tanto o oxigénio que me desce aos pulmões e me corre nas veias.  Eles tinham razão: um dia, passa. Não que se desista, não que se seja derrotado. Não que o amor e a dor nos morram no coração e lá fiquem a marinar. O segredo deve estar em aprender a viver com eles. Aceitá-los como pedaços intrínsecos ao que somos e ao que passamos, um dia, lá atrás.  O futuro é mais aliciante quando não temos nada a perder. Quando os dias já nos feriram o ego e orgulho. Quando já demos o coração, já amamos e já sofremos. Aí sabemos que podemos continuar sem temer cair, mesmo que o medo se revele tantas vezes nos mais pequenos gestos e ainda nos faça subir sobre a espinha um arrepio doloroso. Mas tu já sabes como superá-lo. Engoli-lo e quiçá derrotá-lo. Fintamos a dor como quem já conhece o chão que pi…

para ficar

Não sei ao certo quando deixamos de amar alguém. Não sei sequer se isso alguma vez acontece, se o amor apenas se transforma e se aperta dentro do peito. É por isso que nos custa tanto perder quem amamos. Os sentimentos compactam-se todos, numa reacção tão química que parece física, as memórias lá se enrolam bem umas às outras e o ser até parece renascer uns meses depois. Mas essa coisa da dor, tem que se lhe diga. Não passa, não atenua mesmo que durmamos horas sobre o assunto. Continua ali, atrás da porta e entre as letras das músicas e as vírgulas dos livros. Não há analgésico, antidepressivo ou mesmo veneno fatal que nos remova do sangue o desgosto e a tristeza, as lágrimas de meia noite que até podiam ter ficado debaixo da almofada, mas por serem quase tão potentes como persistentes, nos correm pela cara assim que tocamos na ferida.  Deve ser por isso que gosto de escrever. Melhor, que me perco a escrever. Essa coisa da dor fica no papel, consigo olhar para ela, vê-la em forma, co…

um só

Falei-te tantas vezes de amor. Vezes de mais, até. No meio do teu avesso conseguias inserir-me na confusão e amar-me também, eu sei. Mas hoje já não falo de nós os dois. Talvez ainda escreva insistentemente sobre o que nos uniu, só mesmo porque foi bonito e não resisto. Envio-te sempre uma última carta quando tenho saudades tuas e já não me lembro de como era bom poder deixar o coração encarregue da caneta e do papel.  Agora as palavras saem com mais dificuldade. No meu peito não palpita a mágoa e já não vou chamar-te nomes feios na esperança de te varrer de dentro da minha cabeça. Hoje gosto de te ter cá. Gosto de abraçar as memórias, gosto de saber que fui feliz e que é agora possível sê-lo de mil modos. Mas sei, sei bem que o amor nos arrebata e nos derrota. O sacana sabe mesmo como encher a vida de sons agradáveis e esperas maravilhosas. Um tanto ao quanto de envolvimento perfeito e sublime, como uma droga fatal que não mata e vai moendo até que haja esperança.  Falei-te tantas v…

desapego e encontrões

Dizia-te silenciosamente e aos poucos que me encontrava farta. Completamente saturada. Olhavas para mim como quem pergunta como, se ainda agora comecei. Tenho de te explicar que na memória da minhas células ainda vivem os medos de um passado pouco claro. Ou talvez não. Talvez fique em silêncio porque me cansei de falar.  Preciso de sossego. De um cesto cheio de flores e de adormecer perto de uma respiração serena. Há muito tempo que a minha vida não assenta num pilar seguro. São cordas bambas atadas umas ás outras. São sonhos desfeitos e muitas expectativas amontoadas atrás da porta.  Podes nem saber porquê, mas não posso esperar por ti. O meu caminho é feito de esperas vãs. Preciso de recomeçar levemente. Preciso de abrir a janela e sentir que o mundo lá fora espera por mim. E não apenas estes surtos de felicidade absoluta que se revelam verdadeiras tentativas frustradas de concretização. Eu mereço mais, o meu ego adormecido merece mais, só eu é que não percebi.  Os dias ficam cinz…

escrever-te

"Escrever-te. 
Possivelmente irei fazê-lo mais vezes até ver se no escrever se me esgota a tua fascinação...
E eu sinto-me logo tão infeliz. E digo-te não vás. 
Fica. Para sempre. Há em mim uma luta entre o desejo de que te esqueça e o de endoidecer contigo."

Vergílio Ferreira in Cartas a Sandra