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caravela

Lamento ter-me esquecido de tantas coisas, ter de olhar para trás, sentir na pele os anos que já foram, as dores na alma e no fundo do peito que aos poucos construíram a dura armadura que me aperta a caixa torácica, agora. Correm-me no sangue as memórias, as duras saudades que sinto dos episódios mais caricatos que ao longo do tempo fui armazenando, as vastas colecções de sorrisos e lágrimas, os apertos fortes dos abraços que com alguma lamentável certeza já não verei, nunca mais. Triste é a minha mente, quando me esforço para recordar o rosto de alguém que dissipou, sem eu ver. Aperto-me com vergonha, da memória que me falha, do nome que não me lembro, das noites mal dormidas a divagar e a comer bolachas que hoje me esforço para manter na lembrança.
 Devíamos poder guardar tudo em livros, com imagens a ilustrar, com o som da viola como fundo, com a noite só para nos embalar, para que a memória ficasse impossibilitada de falhar uma e outra vez, para que não escondêssemos hoje o rosto de quem um dia nos quis bem, de quem já não mora em frente da nossa porta, daqueles que foram sem motivo aparente, e que já não voltam pela mesma razão.
 Há que guardar bem as lembranças, os pequenos apetrechos da vida, as mais ínfimas e tresloucadas histórias, para que possamos partilhar sempre a mesma caravela, mesmo que os ventos soprem para cardeais opostos e a idade não nos perdoe. Há que não esquecer que somos todos feitos do mesmo pó, e que o tempo não se conquista, ou se perde, ou se ganha. E convém que não o percamos nunca, porque amanhã, é sempre tarde de mais. 

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