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partículas

Os teus lábios foram de encontro aos meus, e o meu corpo de encontro à parede; esmagavas-me os ossos contra o cimento duro, e eu senti o meu corpo a levitar. Aceleraste o misturar da tua saliva - cujo sabor se assemelhava a mel - com a minha, e sobre a pele que parecia nem me pertencer, só restava agora o suor que  jorrava dos teus poros. 
 Tu persistes num movimentar de partículas que nos unem, o cansaço não te alcança; olho-te nos olhos e não peço que pares - nunca o faria. Também eu quero ser louca naquele momento, quero que o mundo me deixe cometer os piores erros, não quero ouvir mais nada, quero e preciso que fiques aqui, mesmo que amanhã decidas partir, preciso que me oiças, mesmo que os teus tímpanos estejam à muito rompidos, é o meu corpo que implora por mais, não tenho como negar.

Agora pára lentamente, não tenhas pressa que eu também não. Esfola-me a alma com cuidado e aos poucos, mas não me prives da dor, preciso de saber se estás mesmo aqui. Devagar, crava essas mãos enormes dentro do meu peito e leva-me esta coisa a que chamo coração; enterra-o bem longe e não o deixes voltar, deixa um aviso na porta e não deixes ninguém entrar, cela-lhe todas as saídas e deixa que morra aos poucos, num sucumbir profundo e doloroso, para depois, te ires embora.
 Não tenhas medo, já o mataste outras vezes.


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