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defunto


 Quem me dera lembrar-me de tudo o que já pensei ter para te dizer. Quem me dera a mim ter todo o tempo do mundo para o fazer, sem pressa como é costume. E já tive tanta coisa bonita para conversar contigo, assim como tantos momentos onde a raiva se colava ao céu da minha boca e só tinha vontade de te arrancar o coração à dentada. Esta ambiguidade de sentimentos nunca me deixou perceber se o meu amor por ti era o reverso do ódio que tinha às tuas atitudes de príncipe mal formado, cheio de truques e palavras ao vento.
 Mas sim, continuo a desejar lembrar-me das cartas que te escrevi com a cabeça enrolada no coração, das pequenas palavras que rabisquei na porta do frigorífico para não me esquecer, e que mesmo assim me esqueci.
Talvez tenha sido a minha memória, a falhar como é costume; ou o meu coração a dizer chega, a revoltar-se dentro do peito como um defunto atormentado enfiado num caixão. Provavelmente porque se houvera fartado do silêncio dos meus dias quando não tenho nada a dizer, quando as palavras não me saem por pura teimosia, ou mesmo por falta de algo que as motive a saltar-me dos dedos e a colarem-se ao papel.
 No fundo deves estar contente, com um sorriso perverso dentro do peito, por saberes quase tão bem quanto eu que a minha armadura se desfaz assim que chego a casa, e que ameaça ruir muitas vezes ao dia, com gente por perto. Conheces bem o meu coração de manteiga, com um aspecto congelado para não dar nas vistas. E as minhas palavras, essas, sabes de cor cada sílaba. Não tens medo do meu ar feroz e nunca recuas quando te espezinho, e talvez saibas de mim, aquilo que eu já mais irei saber. 

Comentários

  1. Que coisa mais linda, oh, adoro sempre. Completo-me <3

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  2. chega a ser estranho termos alguém na nossa vida que nos conheça dessa forma :x
    o texto está BRILHANTE!

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  3. um pouquinho só, doce. obrigada e olha, nunca deixes de ser docinha. gosto de ti <3

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