À tempos vi um casal já com os seus oitentas estampados no rosto, cobertos daquelas rugas deliciosas que só dão vontade de alisar com o polegar e deixar ficar. Passeavam lentamente - tão rapidamente quanto lhes era possível - de mãos dadas, diria melhor, coladas, encaixando os dedos enrugados uns nos outros, como se estes lá tivessem nascido.
Reparei que não falavam, e não, não me pareceu um daqueles silêncios constrangedores, onde ninguém sabe o que dizer. Talvez falassem pouco mesmo, provavelmente porque não houvera nada a dizer, porque os seus dias eram agora gastos com ternura dos netos e pouco mais. Talvez porque se amassem como eu, infantil, já mais pudesse imaginar.
Costumo idealizar-nos, velhos e cansados. Não sei bem porque o faço, talvez porque queira demasiado ter-te a meu lado quando lá chegar-mos. E sim, quero lá chegar contigo, quero que me ajudes a erguer o esqueleto quando este teimar em fraquejar, quero que (ainda) me leves às bailarinas pela mão, que toques piano e me tragas o teu chocolate quente em conjunto com o teu coração morno para a cama. Desejo arduamente saber de cor cada recanto do teu corpo e da tua mente, poder desenhar-te de olhos vendados e sentir o teu cheiro mesmo antes de entrares em casa. Quero ouvir-te dizer que me amas todos os dias, mais do que ontem e menos do que amanhã, sem pestanejar, sem a voz te faltar. Precisarei certamente do teu respirar para adormecer, e do teu colo quando a vida lá fora se tornar complicada. Vou sonhar contigo todas as noites e acordar com a certeza de que o maior sonho que vivo é aquele que tenho o prazer de protagonizar acordada.
E sabes que mais ? Não haverão certamente, melhores rugas que as tuas.
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