Avançar para o conteúdo principal

efémero


 Dei um breve suspiro e deixei que te levantasses sem dizer uma única palavra. Fingi o sono, contraí as pálpebras, evitei a despedida. Permiti que fosses à tua vida, ao teu mundo azul. Deixei que voasses, que te libertasses. Que o teu coração falasse por ti.
Ouvi o bater da porta, rígido, decisivo. Pude imaginar-te com o teu ar triste mas sempre leve a caminhares de encontro à tua vida, às paredes húmidas do teu quarto alugado nos subúrbios, sobre a madrugada escura e desconcertante. Se soubesses o quanto eu desejava ter-te prendido aos meus lençóis e aos meus mimos, corrido atrás de ti só para te dizer - num tom melancólico e chorão - que te queria comigo até os teus filhos serem os meus, até que aliança no meu dedo me relembrasse na velhice turva que te pertenci sempre, da maneira mais bonita e radical que uma mulher pode pertencer a um homem. Queria ter-te entrado no coração.
 Ainda assim, deixei-te ir. Não disse nada. Não soube dizer nada. A tristeza congelou-me os músculos e mostrou-me que aquele era o caminho certo. Porque o amor nunca se implora, não se pede, não se compra. O teu amor por mim teria de ser mais espontâneo que o teu cérebro, mais natural do que a tua cede. E não, não era. Mesmo que me tenhas amado muitas vezes. Mesmo que me voltes a amar depois de sentires a minha falta. O amor, ao contrário de tantas coisas na vida, é tudo menos efémero. 

Comentários

Enviar um comentário

tudo o que sentires, será bem vindo ♥