Estava na hora. Fechei-te todas as portas e pus-me a léguas. O coração parecia-me tão apertado dentro do peito mas senti-me orgulhosa por não lhe dar ouvidos. Era a primeira vez em muito tempo que cuidava de mim; o ego acenou-me poeirento, despertava agora de um sono profundo.
Demorei muito tempo a voltar a gostar de mim. Acho que nunca o escrevi antes. A verdade é tão dura de ler como de se dizer. As desilusões afogam-me numa melancolia profunda, fico horas a marinar a tristeza e a tentar perceber o que correu mal. A dor que me trouxeste foi em tão grande parte por minha culpa que ainda hoje lamento por mim e não por ti.
Levei tempo a aceitar-me. A querer-me de volta na minha própria vida. Estive muito tempo sem me encarar, sem responder aos meus próprios sentidos, sem desejar nem esperar nada dos outros porque já não sabia esperar. Perdi-me algures. E muito provavelmente, precisei de me perder assim. Tal como precisei de me encontrar aos poucos até içar a bandeira branca e entender que estou tão inteira como antes.
Tu sabes apenas que me magoaste. E é tudo o que precisas de saber. A forma como cheguei ao topo da montanha não é da tua conta. Precisas de construir um castelo só para ti em vez de viveres na sombra dos feitos dos outros. Não é bom para ti nem para ninguém.
E se o passado der um bom livro eu vou escrevê-lo e publicá-lo. Mostrar ao mundo que a dor só está presente quando a escondemos, limitando-a às quatro paredes da casa velha onde nos deparamos com a realidade e podemos então desabar. Mostrar-te que só me magoaste até onde eu quis e que já algum tempo que te fechei o coração. Pena seres tão surdo. Surdo daquele que devias escutar.
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