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cabeça na areia


 Não cedo. Não cedo mesmo que me peças porque me habituei a ceder sem me teres na mão. Sem achares que sabes tudo a meu respeito para depois me esmagares contra o meu próprio esqueleto. Não quer dizer que não magoes, que não me dês a volta, que não me enchas até às pontas do cabelo. Mas não sabes e isso deixa-me mais segura e mais capaz.
 Mas não te recomendo. Isto cansa e não é pouco. Aconchega mas não muito. É simpático para o ego, mas péssimo para o orgulho. A pessoa move-se mas não sabe bem o caminho. Procura e vasculha o baú alheio sem nenhum conhecimento de causa, sem saber que fantasmas é de que devem ficar irremediavelmente presos no armário até que o sempre exista e os leve para longe daqui.
 É por isso que não cedo. Nunca mais. Não cedo porque em tempos dancei na palma da mão. E caí, caí de tão alto que ainda hoje me doem os ossos. E o peito. E a memória. 
Sempre que me lembro tenho vontade de enterrar a cabeça na areia. Ou então escrever. Escrever e não dizer nada que se pareça com nada, com a perfeita noção de que nem eu vou entender. Ninguém entende a mágoa até passar por ela. E depois, quando a poeira baixa e bandeira branca é içada, ficamos a olhar para longe na tentativa de achar o erro. E continuamos sem entender.
 O erro está em amar de mais. Em dar de mais. Mas não há outra forma de ser amar se não com o todo. Amar com a metade e com contenção é tão falso quanto absurdo. Mesmo que se viva na ilusão.
O segredo deve ser deixar-se ir. Tal como eu deixei. E perder, ganhar, correr e adormecer de cansaço. Deve estar em esgotar a última gota para que no futuro não existam ainda gotas por verter. É sofrer muito e amar na mesma proporção. Até que o peito se liberte e não ceda. Mesmo que o coração queira.

Comentários

  1. Adoro, apesar do seu conteudo, adoro a forma como te expressas.

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  2. Não cedas, por ti, porque mereces que o teu coração sare as feridas e te mostre o quanto és forte. Adoro a forma como te expressas, consigo sempre identificar-me com alguma das partes, ou mesmo com o texto todo!

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