Devia ter-te ligado. Ou ter-te escrito uma carta. Ou mesmo um bilhete de despedida e colar-to na cabeceira, para que acordasses e percebesses que não me fui embora em vão, sem sequer te deixar uns rabiscos sobre o papel, uma justificação pouco plausível para a minha falta de jeito para estas lutas entre o emocional e o racional, entre eu e o meu coração ervilha com um défice qualquer que não sei explicar.
Falta-me algo. Deves ter percebido. Falta-me uma ligeira sensibilidade para as emoções que reconheço na maioria dos comuns mortais. Falta-me, muitas vezes, a vontade para concretizar, para sair da comodidade que são estas quatro paredes onde ninguém me cobra afectos nem depende do meu bem estar para se acomodar. Falta-me o chão e só sei voar por aí, à procura do meu lugar ao sol e à beira mar, onde não sei se o amor vem em primeiro ou em último plano, mas também não me preocupo muito com isso.
Quis muitas coisas por tua causa. Quis principalmente, entrar em ti antes que me invadisses. Acabei por fechar as portas e as janelas e fiquei só eu, cheia de armaduras sobre as feridas já antigas. Fiquei eu e os meus medos estúpidos em conjunto com a minha vontade louca de marcar a vida de alguém. Como se isso fizesse alguma diferença.
Se te tivesse escrito alguma coisa, muito provavelmente seria: Perdoa-me. Por ser tão eu quando não posso. Quando devo manter-me o mais afastada possível desta vontade que tenho de controlar o mundo. Perdoa-me a frieza de deixar para trás uma carta em branco e uma cadeira vazia. Perdoa-me por ser tão neutra, tão imparcial e tão alérgica ao comum, ao fácil, ao banal e ao correcto.
Só quis encontrar-te no meio desta confusão toda que é viver. Quis que aparecesses na minha vida todas as vezes que te encontrei, uma e outra vez. As pessoas procuram-se, já reparaste? Já ninguém aparece na vida de ninguém.
E que saudades de ter pessoas a aparecer na nossa vida!
ResponderEliminarGostei de te ler, por vezes o que sentimos é complexo memso!
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