Gostava de falar de todas as vezes em que me apaixonei. Achar a diferença entre a melhor e a pior maneira de amar alguém e depois chegar à conclusão que tenho de ser melhor numa próxima vez.
Mas não. Há uma barreira que me separa do amor banal, do convencional, do felizes para sempre. Não consigo amar sem ter de escolher entre mim e a outra pessoa. Ou bem que amo e me esqueço de mim, ou então esqueço que o mundo existe e apaixono-me pela minha imagem todas as manhãs.
Diziam-me outro dia que o meu problema foi ter escolhido as pessoas erradas para me apaixonar. Como se pudesse escolher. Como se tivesse voz activa nessas revoluções. Quando dei por mim já estava emaranhada dos pés à cabeça, doida por viver qualquer coisa que desafiasse a minha sanidade mental. E tenho a dizer que nisso fui muito bem sucedida.
A verdade é que morro de medo de me apaixonar. É esse o meu problema. E não é de hoje, ou por causa do fulano que foi um otário de primeira. A culpa é mesmo minha e passa por não querer abdicar do sossego do coração e das vezes em que me apetece sair por aí sem dizer nada a ninguém. Morro de medo que alguém entre na minha vida e vire tudo do avesso. Tenho pavor a tentativas falhadas e não suporto a ideia de perder tempo (e lágrimas, e noites em claro, e..) com alguém que um dia vai acordar e decidir que afinal já não posso fazer parte da sua vida.
Claro que isso não impediu que me apaixonasse antes. Claro que já me atirei de cabeça - embora fizesse parecer sempre que estava só a molhar o pézinho - e me parti toda. Qual bibelot. E não só uma vez.
Mas depois de algum tempo entregue a mim mesma, tenho agora a convicção que um dia o universo vai conspirar a meu favor e me vou cruzar com a minha outra metade da laranja num vão de escada qualquer. E tenho agora menos pressa. Ando devagar e subo as escadas com cuidado. Olho à minha volta e percebo muito mais sobre a condição humana: no fim, procuramos todos o mesmo. Alguém que nos ame. Alguém que possamos amar. Alguém que ature a nossa família e os nossos dias menos bons. Que não tenha medo do nosso pijama de inverno e que não fuja quando perceber que não acordamos maquilhadas. Alguém que nos acompanhe, que aprenda o nosso ritmo por gosto e não por obrigação, que não nos largue a mão e que nos perdoe sempre que temos medo.
Alguém. E o meu alguém está lançado às feras, tal como eu. Espero que vá sobrevivendo. Um dia salva-mo-nos um ao outro.
Há feridas que nos deixam sempre de pé atrás. E por mais que não consigamos controlar os nossos sentimentos, é inevitável termos receio que da próxima vez seja tudo igual. Mas uma coisa é certa: não seriamos nada sem amor.
ResponderEliminarhá uns dois anos lia os teus textos... hoje voltei a ler e não fiquei nada desiludida :) sempre bem construídos.. sempre metafóricos.. sempre lindos*
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