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bússola


 Prometi-te que dava a volta ao mundo. Mesmo que não estivesses, que te ausentasses por tempo indeterminado e até se não voltasses. Lembro-me de me fazeres jurar que voltava a ser feliz, de me obrigares a sair à tua frente para que pudesse ver primeiro, sentir primeiro. E depois disso fiquei sempre com a primeira garfada da iguaria que nunca tínhamos provado, com a estreia do CD que nunca tínhamos ouvido, com a leitura do livro que nunca tínhamos lido. 
 Sempre vivi atulhada de palavras. Cheia até à rolha de conversas que só tive comigo própria, e depois contigo. Não tenho espaço para muita coisa na minha vida. Não acumulo tarefas, não organizo agendas, não me prendo em horários. O tempo por mim sempre passou rápido. Disse-te mil vezes que a minha vida corria mesmo quando eu a abrandava, até quando coloquei os sonhos em banho maria e decidi parar para olhar a paisagem. 
 Fizeste-me crer que não tinha sonhos até apareceres. Nunca quis viajar antes de me incitares a marcar um mapa de olhos fechados. E depois, obrigaste-me a escolher os sítios onde iria sozinha. Mas, querido, eu nunca quis ir. Não sem ti. Sem o calor do teu peito contra as minhas costas quando adormecemos. Não sem antes me levares a correr o mundo de mão colada à tua.
 Não quis ir sem ti. Hoje também não sei se quero, mas preciso. Não sei se haverá tanto sol ou se alguém me irá proteger do escuro. Não sei se sei adormecer numa cama que não a minha, que não a tua.
Mas aquilo que me deste preparou-me para a vida. Para a esta e para todas as quinhentas que venham a seguir. O teu amor solto fez-me acreditar que nada do que se prende é realmente nosso. E que eu posso partir mil vezes, amar mil vezes, cair mil vezes. Tu serás sempre a minha bússola. O impulsionador das marés que me movem e me levam para longe do que conheço. Foste as minhas asas e hoje deixas-me a voar sozinha. 
 Porque o teu mundo não é este. Não sou só eu e as mil palavras que tenho para te dar. E é por isso que saíste na outra noite e hoje ainda não voltaste. Nada de bilhetes emocionados, justificações vãs para um destino que não é premeditado. Sem beijos na testa e uma ultima noite de amor. Todas as noites são de amor, dizias. Julgo que a única coisa que fizeste questão de me deixar foi esta vontade de viver a vida, uma e outra vez.
Talvez amanhã também não voltes. E daqui a cem anos ainda andes por aí. Eu sem saber de ti. Tu a cuidares de mim. Como sempre.

Comentários

  1. Há sempre alguém que nos leva a dar o primeiro passo, a descobrir o que não sabíamos ter em nós

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  2. Que lindo texto! Adorei o facto de falares sobre dois dos meu temas favoritos, a viagem e o amor.

    R: Não vou deixar de vir porque cada vez que o faço sorrio a ler as coisinhas que escreves para nós. obrigada! *

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