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 Gosta de ti. Antes sequer de pensares em gostar de outro alguém. Antes de entrares noutro corpo e construíres a tua casa. Gosta de ti, das tuas manias e da forma como preferes evitar certos assuntos. Gosta do teu passado, dos teus erros e das pessoas que amaste. Nada é tão importante como aceitares da tua bagagem, aquilo que te trouxe ao tempo presente assim, inteira. Gosta de ti e não permitas gostar mais de alguém nesta vida. No fim, morremos sempre sozinhos. Levamos para o outro lado o amor que demos e que recebemos, os frutos daquilo que semeamos e inevitavelmente colhemos, as lágrimas e os sorrisos de uma vida em que mesmo acompanhados, estivemos sós. A solidão de um ser único que somos, porque a essência não se partilha.
 Por isso, gosta de ti. E daquilo que não gostares muda. Para melhor ou para pior, tu é que sabes. Só não te acomodes a um ser que não queres ser. Só tu sabes onde podes chegar. Só tu conheces os teus reais medos, daquilo que viveste e como viveste. Só tu sabes dos sorrisos que não eram sorrisos mas porque a vida obriga lá tiveram de ser. Só tu sabes o tamanho do amor que viveste. Mesmo que a tua vida esteja toda exposta, cartas em cima da mesa e coração fora do corpo. Existem coisas que mais ninguém vai entender. (Conforma-te.) Coisas simples como as palavras que te feriram e nem pestanejaste. As noites em que o teu corpo dizia que não e o teu coração só queria colo. Das vezes em que odiaste a tua imagem ao espelho e ainda assim saíste para a rua.
 Reinventamos-nos todos os dias. Foi das catástrofes por que passei que mais me ri, depois, quando a guerra acabou e tive tempo para lamber as feridas. As dores que pensei sentir foram aniquiladas por outras bem maiores, que com certeza um dia serão substituídas num ciclo vicioso que não acaba. O melhor desta vida é que nem tudo é tão mau como parece. Depois de uns meses a dormir sobre o assunto a nossa perspectiva aumenta e o problema diminui. Depois de uma enxurrada de lágrimas as coisas parecem mais claras e aprendemos a chutar as pedras do caminho.
 Arrumamos tantas coisas na gaveta que se um dia nos assaltarem a casa ficamos sem nada. Por isso é que devemos levar o amor próprio preso num cordão que carregamos ao peito. É o verdadeiro impulsionador de marés e o único capaz de nos ajudar a construir tudo de novo. É o cimento da vida que imaginámos, concretizámos e partilhámos com os outros. O despertador de todos os dias que nos lembra que nada é tão nosso como nós próprios.

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