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avô

 Lembro-me bem do dia em que me construíste um baloiço na árvore. Penduraste duas cordas que prendiam uma tábua de madeira que cortaste à medida, com uma paciência só tua e uma dedicação que até hoje não encontrei igual. Lembro-me do dia em que me ensinaste a andar de bicicleta e prometeste, com o olhar, que não me ias deixar cair. E não deixaste mesmo, até quando o corpo já pedia descanso.
Tenho presente na memória as vezes em que ataste uma corda a um poste e, sentado no teu banco de madeira, me deixaste saltar até anoitecer. Todos os dias. Nunca me disseste que não podias, que estavas cansado, que o teu dia não tinha sido bom, que te doíam as pernas e que querias descansar. Esse amor que nunca se esgota eu só conheci em ti.
 Devia ter sete anos quando te disse que gostava de ser veterinária. Sorriste e disseste-me, com a certeza que só os avós carregam na voz, que seria uma grande veterinária. No dia em que decidi que ia ser enfermeira disseste-me que seria uma grande enfermeira. Contaste ao teu médico, aos teus amigos e às senhoras que tomavam conta de ti, com esse orgulho vaidoso de quem se alimenta da felicidade dos seus.
Tenho a certeza que podia escolher mil profissões nesta vida que me dirias sempre que seria grande. Que escolherias sempre ver-me sorrir. Acreditares em mim nunca me deixou duvidar. Ainda assim, deixaste-me perceber sozinha que tudo se consegue com esforço, e que só merecemos realmente as coisas pelas quais lutamos.
 Lembro-me de me contares histórias sobre pássaros. De fingires que me roubavas o nariz e de me apertares os dedos das mãos só para me ouvires reclamar um bocadinho. Lembro-me do colo que me deste, das lágrimas que me limpaste e das feridas que sopraste só para passar mais rápido. Foste o meu melhor amigo de infância e continuas a sê-lo hoje, dizendo-me agora mais baixinho "olá, meu amor". Fui o teu amor desde que me lembro. Apercebi-me, mais tarde, que também és o meu. Nunca te falhou o meu nome, nessa memória que já conta noventa e duas primaveras. Nunca me confundiste a voz, mesmo que a visão te falte. Nunca te esqueceste do dia em que nasci e descreves com pormenor qualquer parte da minha infância.
 Moraste sempre na porta ao lado da minha e hoje sinto falta de te ver sentado a apanhar sol. Tenho pena de não ter ficado mais tempo a olhar para ti. Para essa serenidade que é só tua. Vi-te chorar quando a avó morreu, sem medo que percebessem a tua fragilidade. Vi-te sorrir após um enfarte, deitado na cama de hospital a contar anedotas às enfermeiras.
Nunca tiveste medo de gostar das pessoas. Ainda tens amigos que te vêm visitar a casa e se sentam à tua cabeceira só para te contar como é que anda o mundo lá fora. Sabes avô, não sei se toda a gente terá essa sorte.
 A vida tem passado rápido. Hoje estou demasiado crescida para caber no teu colo e tu demasiado cansado para me carregar. Queria que a tua bagagem fosse mais leve. E assim, a minha também seria. O fim da vida é tão natural que nunca nos lembramos dele. Nunca vivemos a olhar para quem gostamos com a ideia de que um dia vão partir.
Vou querer sempre que fiques mais um bocadinho, avô. Há tanta coisa que queria que visses. Tanto sítio onde te queria levar. Queria que um dia conhecesses os meus filhos e que eles pudessem ouvir as tuas histórias. Que os inundasses de amor como fizeste comigo. Queria ter-te abraçado mais. Agora estás cansado e só queres descansar. E eu, só quero que fiques mais um bocadinho.

Comentários

  1. O amor deste texto é indescritível! Revi os meus avós em muitas das tuas palavras. E revi-me também a mim, sobretudo no desejo de os ter mais um bocadinho ao meu lado.
    É impossível não acabar a leitura de lágrimas nos olhos, porque a ternura que aqui escreveste é palpável.
    Obrigada por esta partilha tão aconchegante.

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  2. r: Nada que agradecer! Chegaram mesmo *.*
    Beijinho grande*

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