Nunca fui boa com datas. Também nunca fui boa com sentimentos que me transcendem e deve ser por isso que ainda hoje não consigo lembrar-me do dia em que partiste sem sentir que me vou desintegrar em mil pedaços só para não sentir a dor que isso me traz.
A vida tem menos cor agora. É como se tivesses levado contigo a paleta com que pintaste a minha infância e o teu riso infinito que preenchia tudo ao meu redor.
Nunca tivemos conversas complexas. Aturaste-me a adolescência. Nunca me pediste que fosse doutora, engenheira ou artista. Nunca quiseste saber se tinha jeito para dançar ou se pretendia casar. A minha felicidade foi a tua felicidade e a vida sempre foi mais fácil perto de ti.
Chegaste a uma parte da tua jornada onde só te importava amar. Estar com os teus. Rir e contar anedotas. Vi-te fugir sempre que houve uma discussão e dos vinte e dois anos que passei ao teu lado nunca te ouvi levantar a voz.
Chegaste a uma parte da tua jornada onde só te importava amar. Estar com os teus. Rir e contar anedotas. Vi-te fugir sempre que houve uma discussão e dos vinte e dois anos que passei ao teu lado nunca te ouvi levantar a voz.
Há qualquer coisa nos avós que traz serenidade. A certeza de uma vida que já foi vivida, mal ou bem. A amargura, se existiu, plantaste-a algures num sítio que não deu frutos. Só tive coisas boas de ti e é por isso que me custa tanto a tua ausência.
Ensinaste-me a esperar o melhor dos outros. A dar o melhor de mim aos outros. A rir e a contar anedotas. Herdei-te a serenidade. E quando me perguntam como consigo parecer impávida perante o caos, tenho vontade de lhes dizer: devias conhecer o meu avô.
E sabes, queria mesmo que todos te conhecessem. Lembro-me de quando te levei à minha escola primária no dia dos avós. Ficaste horas a entreter um bando de crianças irrequietas. A rir e a contar anedotas. A seres tu e eu a ser a miúda mais sortuda daquele bando. Só pelo simples facto de seres meu.
Cinco meses depois e continuo a achar que te vou encontrar um dia ao chegar a casa. É inato. Pouso as malas e estou uns minutos à espera de te ver em qualquer sítio. Não estás. Não te vou encontrar à lareira nem sentado no alpendre a apanhar sol. Percebo isso e ainda me custa como no dia em que soube que partiste.
Cinco meses depois e continuo sem conseguir falar no assunto. Não visitei a tua campa. Não voltei a comer arroz doce. Não decidi se acho que foste para o céu ou se simplesmente te transformaste nas melhores memórias que o meu coração transporta.
Sei que estás comigo. Seja lá porque serias incapaz de algum dia não estar ou porque és responsável por grande parte do que sou hoje. Também sei que havias de querer que a vida continuasse. E continuou, avô. Num espectro de cor mais cinzento e mais sério. A tua casa está vazia e faz eco. E a realidade é tão mais dura quando não estás cá para me(nos) levar ao colo.
Cinco meses depois e esta é a primeira vez que te escrevo. Cinco meses depois é que percebi que já passaram cinco meses. Percebo aos bocadinhos que talvez não te vá mesmo encontrar nos dias em que volto para casa. E custa como tudo, avô.
Senti cada palavra deste texto! Há um vazio que se prolonga.
ResponderEliminarMuita força!
r: Muito obrigada *.*