A imprevisibilidade da vida está, muitas vezes, em encontrar o momento certo na pessoa errada. Aqueles cinco minutos que até podiam ser perfeitos se quem os partilha connosco se pudesse sentar um pouco para os apreciar.
Há um vazio qualquer no momento certo. Quando a rotina fica calma e não há ondas no mar. É como o fim de um dia que desejámos muito: passa sempre depressa e nunca é exactamente aquilo que estávamos à espera. Mesmo que tenhamos feito mil planos e preparado tudo ao pormenor.
Estou, por natureza, habituada a esperar muito pouco. Das pessoas, principalmente. Elevo as expectativas apenas quando gosto muito e sei que aquilo é terreno seguro para se pisar. Mantenho sempre um pé atrás, numa corda bamba que é minha por defeito. Um baú cheio de coisas minhas e muitas gavetas por arrumar. Talvez por isso viva com a consciência plena de que nada dura para sempre. Somos seres em constante evolução e nunca sabemos se amanhã a corda se parte e ficamos sem chão.
Dou mais valor à vida desde que percebi que ela se finda e que o amor que temos por alguém não é suficiente para fazer o seu coração bater. É uma linha muito ténue que separa o hoje do nunca mais. Olho para os meus com mais calma. Olho para o amor com menos paciência porque sei que o quero sem filtros e sem virgulas. Percebi que não tenho tempo para amar devagar, para esperar por amanhã para ficar mais cinco minutos. Só aceito hoje o amor que acho que mereço porque já vivi mergulhada numa taça cheia de nada. E eu tão cheia de tudo.
Sempre fui uma nómada à procura de outro tão nómada quanto eu. Preciso, muitas vezes, de conversar com alguém que me saiba de cor para me encontrar. Perco-me sempre quando amo, dizem-me. Fico a marinar outros sonhos. Persigo outros objectivos. Mudo a cara e o cabelo. E, tantas são as vezes que depois disto me olho ao espelho e procuro por mim. Sento-me à janela e tento achar o meu norte no céu imenso. Sei que estou algures perdida. Numa ambiguidade que é querer ficar e uma vontade avassaladora de me voltar a encontrar.
Nunca percebi se a vida nos manda sinais quando encontramos a pessoa certa. Se o momento certo é como aquele dia que planeámos ao pormenor ou se pode durar a vida toda. Numa simbiose entre o alinhamento dos astros e a sina. Se é preciso muita fé ou se o destino está escrito e não há como fugir.
Não sei se a pessoa certa nos vai parecer tantas vezes a errada que quase nos convencemos disso. E sabendo-se lá por quê, ficamos ali a insistir. A ser quem não somos num momento que nos parece tudo menos certeiro.
É quando aprendemos a relativizar que passamos a viver os momentos com a intensidade que necessitam. E isso também nos permite baixar as expectativas ou redobrá-las, dependendo da segurança e do retorno.
ResponderEliminarTalvez o [in]certo seja apenas um fragmento de ilusão, porque nunca sabemos verdadeiramente a sua origem. Resta-nos apenas seguir com toda a verdade que carregamos no peito.
Adorei o texto!