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caranguejo

 Gostava de pintar o futuro como quem rabisca uma tela em branco, sabendo exatamente o sítio onde passar o pincel. Este futuro que vivo é tão assustador que me esqueço tantas vezes de viver o presente.
Não vos sei dizer ao certo o que mais me assusta. Ás vezes acho que é a incerteza. Outras, são as dúvidas se o passado que está lá atrás não seria uma história mais bonita de se viver.
 Emaranhei-me tantas vezes por não querer virar a página. Acobardei-me, fiquei no meu quanto. Perdi a conta ao que não vivi por medo. Orgulhosamente nunca o admiti. Mas sei-o. Sei tão bem.
 A mudança primeiro alicia-me e depois destrói-me por dentro. Não sei quantas lágrimas já engoli, mas acho que qualquer dia transbordam. O meu eu pessimista grita-me ao ouvido, não consigo abstrair-me.
 Finjo uma calma saloia. Não disfarço assim tão bem, mas os outros também fingem não ver. Não há tempo para gente cobarde. Não há espaço para medos e dúvidas. O momento de agir é agora e toda a gente passa na vida a correr. 
 Não sei se amanhã vou olhar para isto com o mesmo desdém que tenho pela minha impulsividade, de cada vez que ela me assombra e me leva a pisar um soalho desconhecido. Se há coisa que me desconcerta é não saber o caminho. É ter os pés no ar e uma mão cheia de nada. 
A isto de chama viver. Construir. Não sei como pensei que seria possível andar sem ter de seguir em frente. 
 Ainda não sei se esta vida é minha ou se ma roubaram. Não sei se as decisões são minhas, ou se a sede de progresso me entregou de mão beijada uma sala vazia e um coração apertado.
 Escrevo sempre que não me encontro. Desta vez, olho-me ao espelho e não me reconheço. Esta não sou eu e estas palavras talvez também não sejam minhas. 
 Queria muito parar o tempo e ficar a olhar. Ter a certeza na voz e no olhar. Ensinar-me e reeducar-me, como fiz nas mil vezes em que me fui perdendo pelo caminho. 
Só queria ter a certeza que esta vida é minha. A (des)vantagem é que vou ter de a viver para saber.

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