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Reescrever

                              



    Engraçado como a vida nos molda numa forma bem pequena e desconfortável. O tempo dá-nos calo mas não nos tira a dor de viver dentro dos limites. Gostava de me visitar, lá atrás. Fui uma miúda incrivelmente feliz mesmo quando acreditava estar profundamente infeliz. Escrevi rios de palavras que hoje guardo no fundo de um baú cheio de pó. 
    Hoje guardo mais para mim e sou politicamente correta, creio. Sinto falta de extravasar o que me vai cá dentro, sem que nada me seja exigido. Sempre escrevi fora das linhas porque era lá que me sentia bem. Criei realidades bem próprias e foi por isso que me escondi sempre tão bem do mundo à minha volta. 
    Aprendi muito sobre dor e saudade. Hoje não me pesam os amores não vividos nem as cartas não correspondidas. O vazio que fica é profundo e não há forma de colmatar. A pessoas vão mesmo embora deste mundo e por mais que as tente imortalizar, a vida segue e amanhã já não saberei bem quantos tons de azul tinham os olhos do meu avô. 
    Aprendi muito sobre respirar quando o mundo nos sufoca. Ficar ali à superfície a tentar sugar todo o oxigénio que as minhas células precisam para trazer o meu corpo à superfície. E depois, como se todos os pulmões do mundo me trouxessem o ar que preciso, vou ali à minha vida e ninguém dá por mim.
    Aprendi sobre resiliência. A luta dos outros hoje é-me mais próxima e sou todos os dias um pouco mais grata por isso. Agradeço, menos do que queria e mais do que imaginei, o simples fato de estar viva. De conhecer as cores do mundo e poder sair e caminhar até que me doam as pernas. Agradeço os caminhos que a vida me dá, ás vezes gentilmente, outras tantas a custo, e olho para os meus hoje com mais calma.
    Aprendi sobre ser. Despertei para partes de mim que desconhecia e olho-me ao espelho com mais atenção. Hoje sou muitas coisas e por mais que isso me traga a angústia constante de quem gostava de conseguir ser tudo ao mesmo tempo, dá-me algum alento saber que no fim do dia, fui sempre alguém na vida de outro alguém.    
    Hoje descanso menos. Fecho os olhos para dormir e nem sempre tenho tempo para ficar a ver o pôr-do-sol. Tenho saudades da magia que a imprevisibilidade do futuro me trazia. Aquele mar de opções que existiam no horizonte para o qual eu caminhava todos os dias.
    Tenho saudades dos meus amigos todos os dias. Saudades de rir muito e desse muito nunca ser demasiado. Tenho saudades da leveza da vida e do quão certa ela me parecia, exatamente da maneira que era.     
    Pudendo reescrever, talvez mudasse tudo. Ou talvez não. A história é minha mas nunca sou eu que a escrevo. Valha-me isso. 

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