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Mensagens

Reescrever

                                    Engraçado como a vida nos molda numa forma bem pequena e desconfortável. O tempo dá-nos calo mas não nos tira a dor de viver dentro dos limites. Gostava de me visitar, lá atrás. Fui uma miúda incrivelmente feliz mesmo quando acreditava estar profundamente infeliz. Escrevi rios de palavras que hoje guardo no fundo de um baú cheio de pó.       Hoje guardo mais para mim e sou politicamente correta, creio. Sinto falta de extravasar o que me vai cá dentro, sem que nada me seja exigido. Sempre escrevi fora das linhas porque era lá que me sentia bem. Criei realidades bem próprias e foi por isso que me escondi sempre tão bem do mundo à minha volta.       Aprendi muito sobre dor e saudade. Hoje não me pesam os amores não vividos nem as cartas não correspondidas. O vazio que fica é profundo e não há forma de colmatar. A pessoas ...
Mensagens recentes

caranguejo

 Gostava de pintar o futuro como quem rabisca uma tela em branco, sabendo exatamente o sítio onde passar o pincel. Este futuro que vivo é tão assustador que me esqueço tantas vezes de viver o presente. Não vos sei dizer ao certo o que mais me assusta. Ás vezes acho que é a incerteza. Outras, são as dúvidas se o passado que está lá atrás não seria uma história mais bonita de se viver.  Emaranhei-me tantas vezes por não querer virar a página. Acobardei-me, fiquei no meu quanto. Perdi a conta ao que não vivi por medo. Orgulhosamente nunca o admiti. Mas sei-o. Sei tão bem.  A mudança primeiro alicia-me e depois destrói-me por dentro. Não sei quantas lágrimas já engoli, mas acho que qualquer dia transbordam. O meu eu pessimista grita-me ao ouvido, não consigo abstrair-me.  Finjo uma calma saloia. Não disfarço assim tão bem, mas os outros também fingem não ver. Não há tempo para gente cobarde. Não há espaço para medos e dúvidas. O momento de agir é agora e toda a gente pas...

13.04.2013

 Dizia-te há tempos que te escrevia a última carta. Com a mesma convicção com que o digo hoje, mesmo sabendo o quão idiota isso pode parecer. As letras moldam-se como as tuas mãos no meu corpo, soam perfeitas quando sei que é a ti que me dirijo, que é para ti que escrevo como quem nunca se cansa de tentar.  Gostava que já tivessem passados muitos anos. Preferia que a caneta deslizasse no papel com menos embaraço e que não houvesse já nenhuma ponte entre nós. Seria mais simples se eu não fosse exageradamente obcecada por letras e tu não fosses tão interessado na minha loucura. Seria mais fácil se eu tomasse como certo o teu coração vazio e me fartasse de investir nele. Mas não. Tu és oco e eu gosto de bater com força no teu peito, na esperança vã de encontrar alguma coisa.   Esperamos sempre o melhor daqueles que amamos. Ou daqueles que amámos um dia e por isso mesmo não conseguimos deixar de sentir o mesmo apego frágil de outrora. Mesmo que esse amor já tenha sido co...

castelo

 A vida que achámos perfeita para nós dissipa-se. Porque é que as reviravoltas têm de ser sempre tão dolorosas? Porque é que julgamos amar profundamente aquilo que nos magoa?   O amor dissipa-se com a desilusão. O que fica é a nossa obstinação com finais felizes. Não queremos falhar porque nos custa mais assumir o fracasso do que seguir em frente.  Não queremos desistir logo. Porque não podemos. Não podemos saber à partida que não vai dar certo. Não podemos dar uso ao sexto sentido. Melhor será que aquilo (do qual não podemos desistir nem que a vaca tussa) nos destrua. Melhor será que aquilo não deixe nenhum bocado de nós para contar a história.   No fundo, sempre soubemos. O que nos dizem soa bonito mas não nos faz sentir melhor. Só nós sabemos o que é respirar dentro de uma armadura. Só nós sabemos o que é não desarmar mesmo quando o terreno parece seguro. Porque a vida já nos pregou tantas partidas que estamos ali só à espera da próxima....
 A imprevisibilidade da vida está, muitas vezes, em encontrar o momento certo na pessoa errada. Aqueles cinco minutos que até podiam ser perfeitos se quem os partilha connosco se pudesse sentar um pouco para os apreciar. Há um vazio qualquer no momento certo. Quando a rotina fica calma e não há ondas no mar. É como o fim de um dia que desejámos muito: passa sempre depressa e nunca é exactamente aquilo que estávamos à espera. Mesmo que tenhamos feito mil planos e preparado tudo ao pormenor.  Estou, por natureza, habituada a esperar muito pouco. Das pessoas, principalmente. Elevo as expectativas apenas quando gosto muito e sei que aquilo é terreno seguro para se pisar. Mantenho sempre um pé atrás, numa corda bamba que é minha por defeito. Um baú cheio de coisas minhas e muitas gavetas por arrumar. Talvez por isso viva com a consciência plena de que nada dura para sempre. Somos seres em constante evolução e nunca sabemos se amanhã a corda se parte e ficamos sem chão. ...

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 Nunca fui boa com datas. Também nunca fui boa com sentimentos que me transcendem e deve ser por isso que ainda hoje não consigo lembrar-me do dia em que partiste sem sentir que me vou desintegrar em mil pedaços só para não sentir a dor que isso me traz.  A vida tem menos cor agora. É como se tivesses levado contigo a paleta com que pintaste a minha infância e o teu riso infinito que preenchia tudo ao meu redor. Nunca tivemos conversas complexas. Aturaste-me a adolescência. Nunca me pediste que fosse doutora, engenheira ou artista. Nunca quiseste saber se tinha jeito para dançar ou se pretendia casar. A minha felicidade foi a tua felicidade e a vida sempre foi mais fácil perto de ti. Chegaste a uma parte da tua jornada onde só te importava amar. Estar com os teus. Rir e contar anedotas. Vi-te fugir sempre que houve uma discussão e dos vinte e dois anos que passei ao teu lado nunca te ouvi levantar a voz.  Há qualquer coisa nos avós que traz serenidade. A certeza d...

rosas e catos

 Apaixonei-me quando menos esperava e ainda hoje não sei se isso me assusta ou me deixa mais leve. Esse amor vindo do nada foi como uma chapada de luva branca para eu acordar. Uma voz pequenina, lá ao fundo, a dizer-me "Vês, não consegues controlar o mundo, porque é que ainda tentas?!". Existem pessoas que se encaixam e nós, somente isso. Não vale a pena procurar pelo amor quando é ele que nos encontra. Esbarra connosco, amassa, vira do avesso e depois fica ali a rir-se na nossa cara. Envia-nos o que precisamos quando estamos preparados para o receber e não vale a pena trancar a porta, fechar para férias ou tentar amarrar o coração a uma árvore para que não nos fuja. O que é para nós encontra-nos e é sobre essa dádiva desinteressada que me fascino todos os dias.  Olhar para ti e saber que te amo sem compreender o exacto momento em que isso aconteceu deixa-me sempre insaciada. Falta-me sempre algo e é isso que me impulsiona para a frente. Nunca me conformei com o meio...