Abro e fecho os olhos. Há leveza nos gestos, o corpo repousa sobre ele próprio, sem ser preciso recostar-se num abraço mais fechado ou num beijo de boa noite. Respiro fundo porque posso e nunca apreciei tanto o oxigénio que me desce aos pulmões e me corre nas veias. Eles tinham razão: um dia, passa. Não que se desista, não que se seja derrotado. Não que o amor e a dor nos morram no coração e lá fiquem a marinar. O segredo deve estar em aprender a viver com eles. Aceitá-los como pedaços intrínsecos ao que somos e ao que passamos, um dia, lá atrás. O futuro é mais aliciante quando não temos nada a perder. Quando os dias já nos feriram o ego e orgulho. Quando já demos o coração, já amamos e já sofremos. Aí sabemos que podemos continuar sem temer cair, mesmo que o medo se revele tantas vezes nos mais pequenos gestos e ainda nos faça subir sobre a espinha um arrepio doloroso. Mas tu já sabes como superá-lo. Engoli-lo e quiçá derrotá-lo. Fintamos a dor como que...