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Mensagens

A mostrar mensagens de dezembro, 2011

caixa de música

  Que saudades desse cheiro a alecrim e das tuas mãos de pianista aldrabão, maltratado pela vida. Saudades até do teu jeito rude de ser, da tua expressão fechada e do cigarro pousado ao canto da boca.  Se contasse aos outros que vivia contigo, ou melhor, que vivia contigo dentro de uma caixa de música, selados pelo estranho amor que nos unia: tu a tocar piano e eu a dançar para ti, num envolver de corpos e num emaranhar de sentimentos; poucos acreditariam. Era realmente pouco provável que o destino nos juntasse, que os planetas regidos pelas órbitas, ditassem que o meu futuro haveria de ser no teu caminho, bem no meio da tua vida e das tuas coisas, com o único objectivo de te amar tal como tu és, sem perguntas nem porquês, num amor puro e estéril, pronto a fazer-se à vida e a durar para sempre.  Estranho que tenha saudades tuas. Estranho quando ainda hoje te vi, meio perdido e meio tosco no fim da nossa rua, com o nariz empinado e as mãos gastas nos bolsos, s...

mais que ontem, menos que amanhã

 À tempos vi um casal já com os seus oitentas estampados no rosto, cobertos daquelas rugas deliciosas que só dão vontade de alisar com o polegar e deixar ficar. Passeavam lentamente - tão rapidamente quanto lhes era possível - de mãos dadas, diria melhor, coladas, encaixando os dedos enrugados uns nos outros, como se estes lá tivessem nascido.  Reparei que não falavam, e não, não me pareceu um daqueles silêncios constrangedores, onde ninguém sabe o que dizer. Talvez falassem pouco mesmo, provavelmente porque não houvera nada a dizer, porque os seus dias eram agora gastos com ternura dos netos e pouco mais. Talvez porque se amassem como eu, infantil, já mais pudesse imaginar.  Costumo idealizar-nos, velhos e cansados. Não sei bem porque o faço, talvez porque queira demasiado ter-te a meu lado quando lá chegar-mos. E sim, quero lá chegar contigo, quero que me ajudes a erguer o esqueleto quando este teimar em fraquejar, quero que (ainda) me leves às bailarinas pel...

isto

Escrevo sempre que estou desesperada - ou mesmo quando não estou. Ultimamente sinto a sede das palavras na ponta da língua, que se enrola fazendo um nó na garganta. Só as palavras me salvam; as letras, as sílabas, as metáforas e as anáforas, os sujeitos, os predicados, os complementos, os travessões, as vírgulas e os constantes pontos finais. Em todo o meu percurso, de todas as vezes em que senti que o mundo era demasiado grande para mim, e que nada do que fazia se ajustava à minha medida, lá estavam as palavras. No fim de tudo, no fim dos meus dias e no fim do fio que suporta o meu coração atrelado ao corpo, está a escrita. O cheiro do papel e da caneta que não se assemelham a nada que conheço, a leveza que é não ter limites impostos e simplesmente escrever.  Espanta-me quem não as conhece, espanta-me que não as usem como eu, para um proveito que é tão próprio e tão meu. Entristece-me quando as desvalorizam, quando as usam sem as sentir como quem ama pela primeira vez e...

no teu deserto

" Escrever é usar as palavras que se guardaram: se tu falares de mais, já não escreves, porque não resta nada para dizer ."  Miguel Sousa Tavares in " No teu deserto " Sabes que mais, também eu me calo para te escrever. Sim, fecho-me em copas para te poder dizer tudo da maneira mais genuína que conheço em mim, com as letras coladas ao papel como duas irmãs siamesas. Talvez perca por me perder, por não saber por onde ir e por isso escrever até ficar sem dedos. Talvez ganhe por me calar, por fechar a sete chaves as cartas que deixo para te enviar amanhã, ou depois. E muito provavelmente, talvez escreva por ser egoísta, por não ter aprendido a dar o coração de outra forma, por achar que as palavras me dão um mérito que só eu me conheço, e por só estas saberem de mim o que também só tu sabes. p.s: o livro, é dos bons.

vermelho às bolinhas

 Eu gosto desses teus sonhos coloridos que dão vida aos meus. Adoro essas palavras rabiscadas com aquela caligrafia elegante e eternamente charmosa, que me deixas em cima da mesa de cabeceira para não me acordar. E não fazes ideia do quão delicioso se torna o meu despertar por causa disso.  Mais uma noite de mimos, cheia de bailarinas, como eu gosto. Levas-me ao colo no olhar, e não sei como o fazes, mas embrulhas-me no teu manto de príncipe salvação e não há nada que me traga à realidade. Gosto desse teu cheiro, fazes-me lembrar a minha infância, a casa dos meus avós e os rebuçados rabiscados às escondidas. Principalmente, pela felicidade que me transmite, a calma envolta no chocolate quente de todas as noites em conjunto com o calor dessas mãos bem contornadas e firmes.  Já deves estar cansado dos meus eternos agradecimentos, tal como das minhas cartas apaixonadas e do peso das minhas pálpebras nas viagens de regresso a casa. Mas eu não me canso. Mesmo que r...

defunto

 Quem me dera lembrar-me de tudo o que já pensei ter para te dizer. Quem me dera a mim ter todo o tempo do mundo para o fazer, sem pressa como é costume. E já tive tanta coisa bonita para conversar contigo, assim como tantos momentos onde a raiva se colava ao céu da minha boca e só tinha vontade de te arrancar o coração à dentada. Esta ambiguidade de sentimentos nunca me deixou perceber se o meu amor por ti era o reverso do ódio que tinha às tuas atitudes de príncipe  mal formado, cheio de truques e palavras ao vento.  Mas sim, continuo a desejar lembrar-me das cartas que te escrevi com a cabeça enrolada no coração, das pequenas palavras que rabisquei na porta do frigorífico para não me esquecer, e que mesmo assim me esqueci. Talvez tenha sido a minha memória, a falhar como é costume; ou o meu coração a dizer chega, a revoltar-se dentro do peito como um defunto atormentado enfiado num caixão. Provavelmente porque se houvera fartado do silêncio dos meus di...