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Mensagens

A mostrar mensagens de janeiro, 2011

ele vs ela

Levantou-se insegura da cama que já a acolhia, com os olhos cheios de lágrimas - ela não sabia lidar com isso -, cambaleando, tremendo de frio e de medo, daquilo que já tão bem conhecia.  O papel dele era acolhê-la quando os seus principais membros falhassem, e o dela era cair, sempre, toda a sua vida, tropeçando na mesma pedra e no mesmo otário, fazendo com que as feridas no fundo do coração fossem o principal fruto do seu percurso.   Ela sente medo, como sentira antes, quando outrora alguém decidira espetar no seu peito uma enorme farpa, com imensos e dolorosos bicos, daqueles que trazem crostas para vida, ou até para depois dela. Ele está seguro na corda bamba, dá certezas com as suas incertezas, joga à defensiva e mostra algum mau perder.   Juntos não combinam, a água e o azeite no seu estado mais puro e concreto, a dar asas a algo que cresce dentro de um só coração - o deles. As promessas de outrora foram postas de lado, agora vivem somente para ...

personagens

Depois de uns dias a ignorar a tua presença, a fazer de conta que tenho o coração mais saudável do mundo e a fingir que não padeço de nenhum trauma relacionado com amor, sinto-me exausta.   A verdade é que o medo me assalta vezes se conta, das mais variadas formas e feitios, encara personagens nunca vistas e esconde-se nos sentimentos mais inocentes, inquietando-me quando estou longe de ti.   Fácil será para a tua pessoa pensar que te engano, que te aldrabo os pensamentos só para te ter por perto, que te quero porque me falta sempre algo dentro do peito, porque o passado me atormenta sempre que dou um passo em falso, idealizando tu, que nunca serei capaz de seguir em frente.  Enganas-te aí, tal como erras em quase todas as teses que fazes a meu respeito, pois chego agora à conclusão que não fazes a mínima ideia do que para aqui vai, dentro da descontrolada e inconsequente máquina bombeante que possuo. Na tua cabeça, constróis filmes menos simpáticos à cerca...

falhados

Revolta-me a teoria inútil em que te baseias para falar da vida, como se o mundo te coubesse nas mãos e o coração te saltasse do peito sempre que te esforças mais um pouco. Estás a ficar cego, meu caro. Os olhos não servem só para complementar o rosto, há que olhar e ver, observar e esperar, tentar e desistir, até que a visão deixe o foco turvo em que se apresenta, dentro de parâmetros que não deixam de ser normais, visto que abriste os olhos para o mundo à tão pouco tempo.  Começas a confundir-te na sociedade, misturas-te com a outra metade, dás ouvidos a uns quantos falhados, e quando dás por ti, estás a ser como eles, a andar tipo eles, a comer, a vestir e a sorrir como eles. Os falhados são uma praga infinita neste mundo, tropeçam vezes sem conta no mesmo obstáculo, voltam atrás, andam para a frente, rodam em volta da nossa cintura, e quando damos por eles já estão enrolados connosco, numa cama ou num sofá qualquer, a discutir banalidades políticas e uns quantos afins de...

carraça

Vives tão cravado no meu coração que o som do teu respirar se mistura com o meu, produzindo uma melodia monocórdica, quase inaudível, a não ser para mim, que te oiço a quilómetros de distância.  Aos poucos, e como quem não quer a coisa, acabo por te aldrabar enquanto dormes quieto dentro de mim, a sugar as minhas entranhas, como quem toma posse de alguma coisa ; retiro o teu enorme cadeado, que sela o meu coração, com imenso cuidado para não te acordar e provocar uma enxurrada de emoções desnecessárias.  Ás vezes lá despertas, sonolento e mal disposto, apertas-me mais contra ti e eu acabo por sair incapaz da situação, magoando quem cura agora as feridas que tu deixaste pelo caminho. Voltas a adormecer, comigo presa a ti, ao teu coração vazio e sem dó do meu corpo, que é completamente projectado contra o fundo do poço para onde me atiras.  Sabes que possuo um talento enorme para engenhocas, e que a minha paciência sempre contrastou com a tua fal...

repetição

Todas as noites engulo o mesmo grito desesperado, mordo os lençóis até que estes cedam, espeto as unhas na carne com toda a força possível, selo o coração e os ouvidos, e assim, aos poucos, com a dissipação do teu perfume, vais-te embora.  Levas contigo a magia que te envolve, espetas o meu coração freneticamente até derramares sobre ti todo o meu sangue, delicias-te com o sabor da vitória, até que ergues o meu corpo, incapaz, e me beijas por dentre os teus dedos, cravados no meu rosto, que soam como carícias no fim do pesadelo.  Esgotei as palavras que se dirigem a ti, eu que sempre pensei que à tua volta existia uma infinita onda de inspiração, daquelas que só existem para os grandes poetas, e que eles teimam em chamar de musas.  E tal como eles, eu já não sei falar de ti sem me tornar repetitiva, sem cansar os verbos e os adjectivos, não consigo dizer-te mais vez nenhuma que estragas-te tudo, que és um idiota, que me estrangulas-te o coração e por isso sofres agor...

caravela

Lamento ter-me esquecido de tantas coisas, ter de olhar para trás, sentir na pele os anos que já foram, as dores na alma e no fundo do peito que aos poucos construíram a dura armadura que me aperta a caixa torácica, agora. Correm-me no sangue as memórias, as duras saudades que sinto dos episódios mais caricatos que ao longo do tempo fui armazenando, as vastas colecções de sorrisos e lágrimas, os apertos fortes dos abraços que com alguma lamentável certeza já não verei, nunca mais. Triste é a minha mente, quando me esforço para recordar o rosto de alguém que dissipou, sem eu ver. Aperto-me com vergonha, da memória que me falha, do nome que não me lembro, das noites mal dormidas a divagar e a comer bolachas que hoje me esforço para manter na lembrança.  Devíamos poder guardar tudo em livros, com imagens a ilustrar, com o som da viola como fundo, com a noite só para nos embalar, para que a memória ficasse impossibilitada de falhar uma e outra vez, para que não escondêssemos hoje ...

amanhã ou depois

Aposto que esperaste acordado por mim, gostas sempre de me perseguir nesta reviravolta de silabas, como se tivesses algum tipo de direito. Sei que és tu que me aguças os sentidos à distância, e sem querer, acabas por me levar até ti para nos perder-mos em conjunto, durante largos minutos.  O que me une a ti não é um simples sentimento impensado e extremamente imaturo, agora o que nos une são laços, criados pela distância, pela imensa e principal amizade que sempre tivemos, pelo tempo em que passo sem ter noticias tuas, pelas palavras que amargamente trocamos, por já não saber-mos lidar com uma rotina que não inclua o teu colo e as minhas mãos frias.   Lembro-me - e a memória que tenho é vaga por esforço próprio - do último dia em que me encostas-te levemente à parede, recostando o teu corpo sombrio perto de mim, abraçando-me com força para eu não chorar, gritando-me silenciosamente ao ouvido, que era "tão ridículo tentar esquecer(nos)" . Pela primeira vez, eu es...

tremómetro

Estás sempre à minha procura na tentativa de te achares, como se há muito tempo te tivesses perdido em mim.  Sei bem que não faço parte do teu coração, a tua ânsia de amar destrói-te os planos, e quando pensas que estás quase lá, na verdade, ainda nem começaste. O ser humano forma-se a partir do pó que levanta e das tempestades que deixa passar, e tu só tens de aprender a esperar quieto, de modo a cresceres saudável e sem arranhões, daqueles chatos e fundos que acabam por não nos deixar nunca.   Sei que estás distante do teu ponto de fusão, tendes em pensar que me enganas, sedutor e irrequieto, mas as mulheres possuem termómetros a que chamam de coração, e quando este não treme, agitando o seu corpo ao movimento de outrem, a coisa ainda tem muito que aquecer.  O melhor é sentares-te aí, ouve o teu coração. Acredita em ti e nele, mas não o deixes falar de mais. Conta-lhe uma história e adormece-lo, segue por ti e não por ele, sufoca esse g...

biblioteca emocional

Lembro-me bem da chuva a cair, sobre aquele chão gasto pelos nossos pés, pelas vezes em que vimos o pôr-do-sol e achámos que tudo começava ali mesmo, quando o dia se iniciava, outra e outra vez, como se fosse um ciclo interminável.  As gotas de água fazem um barulho ensurdecedor dentro da minha cabeça, trazem-me os cinco minutos que guardava só para poder olhar para ti, imóvel com o coração irrequieto, deitado sobre um imenso chão coberto de areia, que nos lambuzava as roupas com lama, e nos tornava crianças novamente.  Sei que já não me ouves, que fechas-te o coração para mim. E quando um homem fecha o coração, é melhor deixá-lo só do que insistir, pois estes nunca abrem uma excepção, nem para nós, nem para ninguém. Sei também que agora fazes doação de afectos por outras bandas, distribuis amor pelas mais necessitadas e tendes em não as deixar sós. É sempre tão difícil resistir a uma mulher só, não é ?  Volto a ouvir os te...

pedaços

Estou a limpar o meu coração, aos poucos, não deixando nada por dizer, nada por fazer. Estou a varrer-te do meu caminho, a polir a tua imagem dentro da minha cabeça até que não reste nada do que foste, nada do que fomos, nada do que me tornei por tua causa.   Não faço movimentos muito bruscos, não exerço força contra o meu coração, é patético julgar que alguma vez conseguirei vencê-lo. Vou pegando em ti aos poucos, e todos os dias largo um pedaço do teu corpo pelo chão, deixando que o vento de leve de mim. Faço para te esquecer, vou deixando o meu coração dentro de outros corações, para que este não petrifique na tua ausência. Aceito os mimos e o colo de quem me quer bem, sem olhar a quem, sem pedir licença, sem me importar se estás lá ou vais voltar.   Hoje estou inteira graças à força que o mundo exerce sobre mim, ter-me-ia desfeito se não me tivessem agarrado a tempo, pois a dor torna-nos inúteis, impotentes e inconsequentes. As dores do coração não têm anal...