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avô

 Lembro-me bem do dia em que me construíste um baloiço na árvore. Penduraste duas cordas que prendiam uma tábua de madeira que cortaste à medida, com uma paciência só tua e uma dedicação que até hoje não encontrei igual. Lembro-me do dia em que me ensinaste a andar de bicicleta e prometeste, com o olhar, que não me ias deixar cair. E não deixaste mesmo, até quando o corpo já pedia descanso. Tenho presente na memória as vezes em que ataste uma corda a um poste e, sentado no teu banco de madeira, me deixaste saltar até anoitecer. Todos os dias. Nunca me disseste que não podias, que estavas cansado, que o teu dia não tinha sido bom, que te doíam as pernas e que querias descansar. Esse amor que nunca se esgota eu só conheci em ti.  Devia ter sete anos quando te disse que gostava de ser veterinária. Sorriste e disseste-me, com a certeza que só os avós carregam na voz, que seria uma grande veterinária. No dia em que decidi que ia ser enfermeira disseste-me que seria uma grande ...
 Gosta de ti. Antes sequer de pensares em gostar de outro alguém. Antes de entrares noutro corpo e construíres a tua casa. Gosta de ti, das tuas manias e da forma como preferes evitar certos assuntos. Gosta do teu passado, dos teus erros e das pessoas que amaste. Nada é tão importante como aceitares da tua bagagem, aquilo que te trouxe ao tempo presente assim, inteira. Gosta de ti e não permitas gostar mais de alguém nesta vida. No fim, morremos sempre sozinhos. Levamos para o outro lado o amor que demos e que recebemos, os frutos daquilo que semeamos e inevitavelmente colhemos, as lágrimas e os sorrisos de uma vida em que mesmo acompanhados, estivemos sós. A solidão de um ser único que somos, porque a essência não se partilha.  Por isso, gosta de ti. E daquilo que não gostares muda. Para melhor ou para pior, tu é que sabes. Só não te acomodes a um ser que não queres ser. Só tu sabes onde podes chegar. Só tu conheces os teus reais medos, daquilo que viveste e como viv...

se um dia

 Gosto de ti. Com o estômago às voltas e o coração fora da caixa. A maioria das vezes não sei se quero ficar ou fugir a sete pés. O chão que piso é tão incerto que vivo sempre na corda bamba, sabes? Não há amor que não me assuste. É como repelente. Quando me apaixono a minha primeira tentativa é de afastamento. Curioso, não é? Quero tanto ficar perto, quase dentro, que me assusto. Vou ali à minha vida só para tentar esquecer um bocadinho. Não suporto a fragilidade de um coração exposto e, sinceramente, não sei se nasci assim ou se foi a vida que me obrigou. Não sei se sabes o quão difícil é ser eu. Sentir que há algo que não controlo deixa-me como um peixe fora de água. O medo e a crença negativista de que é sempre bom de mais para ser verdade prendem-me os pés ao chão e colam-me o coração à boca. E bem sei que prometi viver as coisas com mais tranquilidade, mas mesmo quando juras ser amor eu duvido. Duvido sempre porque estou formatada para questionar. Tenho um cérebro ma...

boomerang

 Curioso como as pessoas amam quem não as ama. E como quem não sabe receber esse amor normalmente também está mergulhado numa falta reciprocidade. Nem sempre é uma questão de saber, muitas vezes é apenas sentir. Curioso como quem não ama normalmente se culpa. Culpa de quê, pergunto. Obrigar o coração a ficar onde ele não quer estar é uma luta tão desnecessária como dolorosa. Bom é quando o sentimento é do género boomerang, volta na mesma intensidade com que é lançado e sabe exactamente o sítio de onde partiu. De nada vale o amor vertido em enxurradas para dentro de um copo minúsculo. De nada vale o copo meio cheio. Amor que é amor transborda.  Curioso como há amores que não morrem. Mesmo quando o tempo passa e a chama se apaga. Vai a  paixão, vai o desejo e as hormonas associadas mas fica um bocadinho de não-sei-o-quê no fundo que não evapora. Fica ali a marinar numa mistura de solidão e esperança. Como se o outro fosse bater à porta amanhã de manhã e todo o pa...

e agora?

 Hora de recomeçar, pôr os pés no chão e perguntar ao destino: então e agora?  É tempo de não nos contentarmos, obrigue-mo-nos a ser realmente felizes. Não faz sentido se não for sentido. Sintamos, então. Com a intensidade que o coração permite. Aprendi que não temos limites. Cria-mo-los, por segurança. Do corpo, somente. A alma vai sempre mais além. As metas que traçamos ficam muito aquém daquilo que conseguimos realmente fazer. Eternamente limitados, presos numa gaiola que criamos para nos proteger. Mas não nos protegemos, fecha-mo-nos apenas.  O mundo é tão grande que nos torna pequenos. Ficar a marinar numa rotina que não nos acrescenta só nos torna mais minúsculos. Cresçamos, então. Sejamos tudo aquilo que queremos ser quando ninguém está a ver. Sejamos melhores, connosco e com os outros. Podemos sempre mudar o que está mal. Podemos sempre mudar o que está bem. Interessa errar, cair, chorar. Interessa o egoísmo de uma alma que não se prende e o altruísmo d...

alma ao sol

 Faz uma pausa. Liberta o coração e relaxa. Nem tudo o que não nos mata nos torna mais fortes, eu sei. Se sei. Mas podes ficar aqui. Ou então deixas-me ir contigo. Também preciso de extravasar o que me sufoca, desatar os nós que me atam e matar as memórias que me atormentam. Podes ficar comigo, em silêncio. Porque é no silêncio que estão a maioria das respostas. A vida é difícil, sabias? Os medos engolem-nos quando decidimos crescer. Quando o tempo não chega para amar quem nos faz bem. Mas tu podes ficar. Deixa o coração em banho-maria e não temas porque não te magoo: sei como é.  Sempre que deixo que me encontres é porque estou perdida. E tento não me perder tantas vezes como queria. E se me achas é porque me deixo achar. Porque decidi errar no caminho para casa e olhar para o céu. Há quanto tempo não olhas para o céu? Apesar de tudo, podes ficar aqui. Na minha casa e perto do que me aquece. Vamos estender a alma ao sol. Por vezes só precisamos de alguns minutos lon...

até amanhã

 Ainda te vejo chegar, encostas-te à ombreira da porta do meu quarto e dizes qualquer coisa que não percebo bem. Ainda oiço os teus passos quando a casa está vazia. E a tua respiração a interromper o meu silêncio. Confesso que me cais muita vez em esquecimento. As coisas permaneceram no mesmo sítio desde o dia em que cá estiveste pela ultima vez. Não houve grandes revoluções, gritos ou cadeiras pelo ar. A tua despedida foi suave e disseste "até amanhã". Perdoo-te a mentira, sei que tiveste de ir.  Sinto a tua falta. Ainda mais das tuas palavras e das piadas ao fim do dia. Ás vezes dou por mim a rir-me de coisas que me disseste à séculos. Recordo-me da forma como gostei de ti e não resisto a sorrir(-te). Foste o pássaro mais leve do meu coração. Bem diferente de tudo o que tive e de tudo o que me tinham dado. Construíste uma ponte para que pudesse sair da bola de neve onde vivia, contaste-me que o amor fere toda a gente um dia e obrigaste-me a desafiar o medo. Obriga...