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tendas e castelos


 O olhar desfocado que agora tenho sobre as coisas não me deixa escrever. Irrita-me e preenche-me, dá-me ânimo e tira-me do sério. Não sei se bom, se mau. Não sei sequer se deva ou se possa. Se é pelo menos bom para o coração.
 Sei que a mágoa se foi. E se começar por aí é óptimo. Embora me afaste disto, do que amo e me mata. Das letras, do pensar profundo e estampa perfeita do que sinto. Provavelmente já nem quero saber o que sinto. Já não me interessa saber se me desarruma a casa toda ou só faz vento lá fora.
Sei que quando fecho a porta, algo entra. Fica ali entre a ombreira a observar os meus movimentos. A forma como me apaixono lentamente pelas coisas e pelos outros. A paixão é muitas vezes, lenta. E consome tão devagarinho que só damos por ela quando já não podemos nem queremos mexer o esqueleto. A menos que seja para ficar perto, para nos enrolarmos, para amar e deixar que o tempo passe e o vazio se preencha.
 Não sei, porém, se o conformismo será bom. Se traz algo de novo à minha vida ou apenas adia o inadiável. Um dia temos de nos confrontar connosco mesmos. Perceber se é o momento perfeito para construir o castelo ou se chegou a hora de arrumar a tenda. E não tenho nada contra tendas, só que não são feitas para durar, persistir, insistir e resistir, e um dia dá-lhes na telha e voam daqui para fora.
E por melhor que seja acampar, nada como voltar a casa. Aquecer as mãos e o coração e contar que os dias e as horas passam devagar quando não existe um chão seguro para se pisar, quando o sol brilha por segundos e depois lá temos de reter no peito as saudades que sentimos dos momentos que podem nem sequer ter existido. Talvez seja fruto da imaginação, flashback's de felicidade que mais dia menos dia regressam ao país de onde vieram.
E a cinderela cá fica, de tenda armada e castelos no ar. Mais uma vez.

Comentários

  1. «Um dia temos de nos confrontar connosco mesmos. Perceber se é o momento perfeito para construir o castelo ou se chegou a hora de arrumar a tenda». Acho que a chave é mesmo essa. Depois de percebermos isso é que sabemos que caminho podemos chegar.
    Acho que o conformismo não traz nada de novo nem nos leva a algum lado, mas, por vezes, talvez seja bom ele existir.
    Adorei o texto. Mais uma vez, fantástico!

    Beijinhos*

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  2. Oh, que querida *.* não tens que agradecer, de coração

    Beijinhos*

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